OS MANDAMENTOS E O EVANGELHO

Antes de começar a tratar de cada um dos Dez Mandamentos, gostaria de dizer algumas palavras sobre duas questões: Há diferença existe entre os Mandamentos e o Evangelho? Por que os Mandamentos são dez?
Em primeiro lugar, deve-se dizer que o Evangelho é a continuação e o aperfeiçoamento dos Mandamentos. O próprio Jesus disse: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir” (Mateus 5,17).
A Carta aos Hebreus ensina: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (Hebreus 1,1-2). Portanto, deve-se compreender que o Filho de Deus, Jesus de Nazaré, é a perfeição da revelação do Antigo Testamento. Não há como optar pelos Mandamentos e rejeitar o Evangelho ou vice-versa; pelo contrário, no Evangelho encontramos aperfeiçoados todos os Mandamentos de Deus.
Aqui conviria ler por inteiro o Sermão da Montanha (cf. Mateus 5-7). A abertura é solene: Jesus proclama as Bem-aventuranças. Elas são a fina-flor da perfeição evangélica. A perfeição do Novo Testamento é mais exigente que a do Antigo. Por isso, para se fazer entender adequadamente a respeito de alguns pontos, Jesus diz: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás’ [...] ‘Não cometerás adultério’ [...] ‘Quem despedir sua mulher dê-lhe um atestado de divórcio’ [...] ‘Não jurarás falso’ [...] ‘Olho por olho, dente por dente’ [...] ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’”... A todos estes mandamentos, digamos, à “moda do Antigo Testamento”, Jesus contrapõe os mandamentos à “moda do Evangelho”, com estas palavras: “Eu, porém, vos digo”.... Dessa forma, Ele corrige e aperfeiçoa as limitações dos Dez Mandamentos da Antiga Aliança.
Além de aperfeiçoar os Mandamentos de Deus, Jesus os sintetizou em poucas palavras que os resumem a todos. Um fariseu lhe perguntou: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (Mateus 22,36-40). Usando palavras semelhantes, Jesus os condensou dessa forma: “Tudo quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas.” (Mateus 7,12). Por sua vez, São Paulo ensina que “o amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (Romanos 13,10).
Foi este o mandamento antigo que Jesus na última ceia chamou de mandamento novo e que nos deixou como sua suprema vontade: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (João 13,34). Este é o coração da perfeição do Evangelho!
De tudo isto tira-se a seguinte conclusão: quem quiser buscar a perfeição proposta por Jesus não pode limitar-se ao cumprimento do mínimo dos mínimos. Os fariseus e escribas é que mediam até onde podiam chegar sem cometer pecado... Jesus advertiu seus discípulos contra esse perigo: “Eu vos digo: se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mateus 5,20).
Jesus nos convida ao máximo possível: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus 5,48). Não basta evitar o pecado, não basta ser bom, é preciso esforçar-se para ser sempre melhor. Evidentemente, para isso, precisamos da ajuda do Senhor, como ele mesmo afirmou: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15,5).
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E agora encaremos a segunda questão: por que os Mandamentos são dez?
Os Mandamentos, chamados também de Decálogo – o que significa “Dez Palavras” – como vimos, exprimem a vontade de Deus para seu povo Israel. A Bíblia apresenta duas redações dos Mandamentos: a do Livro do Êxodo, mais longa (cf. Êxodo 20,2-17) e a do Livro do Deuteronômio, mais breve (cf. Deuteronômio 5,6-21). Para fins de catequese e fácil memorização, a Igreja os sintetizou em Dez:
• Amar a Deus sobre todas as coisas
• Não tomar seu santo nome em vão
• Guardar domingos e festas de guarda
• Honrar pai e mãe
• Não matar
• Não pecar contra a castidade
• Não furtar
• Não levantar falso testemunho
• Não desejar a mulher do próximo
• Não cobiçar as coisas alheias
A Bíblia nos relata a forma como Deus entregou a Moisés os Dez Mandamentos. “O Senhor disse a Moisés: ‘Sobe para junto de mim no monte e fica ali. Eu quero dar-te as tábuas de pedra, a Lei e os mandamentos que escrevi para que instruas o povo´” (Êxodo 24,12). São as famosas Tábuas da Lei. Numa constavam os três primeiros mandamentos, que se referem ao amor a Deus; na outra, os demais sete, referentes ao amor do próximo.
É importante também compreender qual era o sentido dos Dez Mandamentos no Antigo Testamento. Ao libertar o povo de Israel do Egito, Deus o conduziu ao deserto e ali lhe propôs uma Aliança. O intermediário foi Moisés. Após seu encontro com Deus no alto do monte Sinai, “Moisés foi transmitir ao povo todas as palavras e os decretos do Senhor” (Êxodo 24,3). O povo se comprometeu a cumprir os Mandamentos de Deus.
Em seguida, a Aliança foi concluída com a celebração de holocaustos e sacrifícios. Moisés “tomou o livro da Aliança e o leu em voz alta ao povo, que respondeu: ‘Faremos tudo o que o Senhor falou e obedeceremos’. Moisés pegou, então, o sangue, aspergiu com ele o povo e disse: ‘Este é o sangue da Aliança que o Senhor fez convosco’” (Êxodo 24,7-8). A essência da Aliança era esta: o povo reconheceria Javé como seu único Deus e o adoraria como tal (portanto não reconheceria a existência de outros deuses e não adoraria seus ídolos), e Deus faria de Israel o seu povo escolhido, o amaria com predileção, protegeria, defenderia, caminharia com ele em todo tempo e lugar (cf. Êxodo 19-24).
Isto tudo continua valendo também para nós, pois a vontade de Deus passou pela mente, pelo coração e pelos lábios de Jesus, o novo Moisés. Por isso, somos convidados a assumirmos o compromisso de cumprir integralmente os Dez Mandamentos como expressão da vontade do nosso Pai que nos falou em seu Filho Jesus. Eles são o único código da Aliança e providenciam o bem total do ser humano. Diz São Tiago: “Quem pretende observar a Lei inteira, mas comete transgressão num só ponto, torna-se culpado contra toda a Lei” (Tiago 2,10). De fato, o mesmo Deus que mandou um mandamento, mandou também os outros, e o bem do ser humano que os Mandamentos promovem, não seria totalmente bem se faltasse uma parte dele.
O Catecismo da Igreja Católica ensina: “Visto que exprimem os deveres fundamentais do homem para com Deus e para com o próximo, os Dez Mandamentos revelam, em seu conteúdo primordial, obrigações graves. São essencialmente imutáveis e sua obrigação vale sempre e em toda parte. Ninguém pode dispensar-se deles. Os Dez Mandamentos estão gravados por Deus no coração do ser humano” (CIC n. 2072).
Disto dá testemunho São Paulo escrevendo aos Romanos. “Quando os pagãos, embora não tenham a Lei, cumprem o que a Lei prescreve, guiados pelo bom senso natural, esses que não têm a Lei tornam-se Lei para si mesmos. Por sua maneira de proceder, mostram que a Lei está inscrita em seus corações: disso dão testemunho igualmente sua consciência e os juízos éticos de acusação ou de defesa que fazem uns dos outros” (Romanos 2,14-16). Dessa forma, nem mesmo os pagãos podem desculpar-se totalmente pelo mal que cometem, pois a consciência deles os adverte e repreende quando o praticam.
Encerrando, rezemos com a Bíblia: Senhor, “de todo o coração eu vos procuro; não permitais que eu me aparte de vossos mandamentos. Guardo no fundo do meu coração a vossa palavra, para não vos ofender. Sede bendito, Senhor, ensinai-me vossas leis... Hei de deleitar-me em vossas leis, e jamais esquecerei vossas palavras” (Salmo 118,9-12.16).
PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.
PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.

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