sábado, 25 de agosto de 2012

O SEXTO MANDAMENTO, COMVITE Á PUREZA DO AMOR



Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo?
Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo?
(1 Coríntios 6,15.19)

Deus não nos chamou à impureza, mas à santidade
(1 Tessalonicenses 4,7)


O Sexto Mandamento é um convite à pureza do amor, em particular, em referência ao nosso próprio corpo e ao corpo dos outros. A carne é frágil..., por isso, esse território precisa ser rodeado de defesas, do contrário, os estragos podem ser significativos. A castidade é um dom de Deus, mas conservá-lo ou adquiri-lo depende também do nosso esforço e cuidado, do uso de todos os meios que o Espírito Santo, por Jesus, põe à nossa disposição. São Paulo nos alerta: “Deus não nos chama à impureza, mas à santidade”.
O pecado contra a castidade assume formas diversas, seja por pensamentos e desejos, seja por palavras e obras. O Catecismo da Igreja Católica elenca uma série delas:
Luxúria: o desejo desordenado ou a busca do prazer sexual por si mesmo, fora das finalidades estabelecidas para o sexo pelo Criador, que são a união dos esposos e a procriação. (Há quem confunda “luxúria” com “luxo”: o luxo é ostentação, nada tem a ver com sexo).
Masturbação: a excitação voluntária dos órgãos sexuais por mero prazer. Muitos justificam a masturbação como um fato natural. A Igreja e o senso moral dos fiéis sempre a consideraram um ato gravemente desordenado por si mesmo. Todavia, para julgar da gravidade maior ou menor do ato praticado, será preciso levar em conta a imaturidade afetiva, certos hábitos contraídos, estados de angústia, outros fatores psíquicos ou sociais que podem diminuir a força da responsabilidade.
Fornicação: a união carnal entre um homem e uma mulher não casados. Como as faltas acima, ela é contrária à dignidade das pessoas porque as instrumentaliza e é sempre um abuso da sexualidade humana que, como vimos, tem objetivos específicos ditados pelo Criador.
Pornografia: exibe a outros os atos sexuais, isolados de sua finalidade, por puro prazer. Desnatura o ato conjugal, ridiculariza a doação íntima dos esposos, ofende gravemente a dignidade humana. Todas as pessoas envolvidas no processo pornográfico (atores, comerciantes, público) não estão isentas de culpa e de escândalo; sem falar dos que a incentivam e, com ela, acumulam fortunas explorando a fraqueza humana. Em particular, a pornografia escandaliza enormemente a juventude, encaminha para o vício e cria um mundo ilusório, artificial.
Prostituição: gravemente contrária à própria pessoa que se prostitui, reduzida a puro objeto de prazer. A prostituição é um flagelo social e envolve todas as categorias de pessoas de todas as idades. É sempre falta grave; todavia, sua responsabilidade pode ser atenuada pela pressão da miséria, da chantagem e de outros fatores pessoais ou sociais.
Estupro: usar da força para praticar um ato sexual com alguém. É contra a justiça e a caridade, provoca danos gravíssimos, lesa o direito ao respeito, à liberdade, à integridade física e moral da pessoa ofendida. Na mesma linha do estupro deve-se apontar o incesto e a pedofilia (Cf. Catecismo da Igreja Católica n. 2351-2356).
O que dizer da homossexualidade? “A homossexualidade designa as relações entre homens e mulheres que sentem atração sexual, exclusiva ou predominante, por pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade se reveste de formas muito variáveis ao longo dos séculos e das culturas. Sua gênese psíquica continua amplamente inexplicada. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a tradição sempre declarou que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados”.
“Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2357-2359).
Em conclusão: a castidade não é um “bicho de sete cabeças”, impossível de se praticar. Apesar de vivermos num clima saturado de erotismo, estimulado particularmente por certos meios de comunicação social, por certas “ondas” do momento... há muitas pessoas que se conservam puras e santas, na alma e no corpo. E há sempre o caminho do retorno, lembrando o que diz São João: “Se o nosso coração nos acusa, Deus é maior do que o nosso coração e Ele conhece tudo” (1 João 3, 20).
O discípulo/a de Jesus, apesar da sua fragilidade, auxiliado pelo Espírito Santo, pela Palavra de Deus, pela oração, pelos sacramentos (especialmente da Reconciliação e da Eucaristia), se esforça para aprender a amar de forma pura, a si mesmo, aos outros e a todas as criaturas. Na perfeição do amor é que consiste a santidade. Neste sentido, o Sexto Mandamento vem em auxílio da nossa fraqueza. – (Continua na próxima postagem).

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012



O QUINTO MANDAMENTO, A PAZ... E A GUERRA



Também a paz faz parte do quinto mandamento. É contra o quinto mandamento tudo o que atenta gravemente contra a paz. Especificamente:

· A cólera, que é desejo de vingança: “Todo aquele que tratar seu irmão com raiva será acusado perante o tribunal” (Mateus 5,22). Dependendo do que a cólera pretende e das atitudes que ela provoca contra alguém, pode chegar a ser falta grave contra a caridade.

· O ódio é também contrário à caridade, sobretudo quando se deseja um mal grave ao próximo. “Ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus’” (Mateus 5,43-45).

· O desrespeito da pessoa humana também é contra a paz. Paz não é só ausência de guerra e equilíbrio de forças. Sem a paz, violam-se todos os direitos dos seres humanos, da sociedade e da humanidade.

A paz do cristão deve ser fruto da paz de Cristo, que Ele conquistou derramando seu sangue. “Ele é a nossa paz” (Efésios 2,14). E declarou “felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5,9). A paz de Cristo é bem diversa da “paz” do mundo. Ele disse: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não é à maneira do mundo que eu a dou” (João 14,27).

Além da paz, existe também a guerra. Infelizmente! O quinto mandamento defende a vida e condena tudo o que destrói a vida humana. Por isso, a guerra é fonte de males e injustiças humanas; ignora completamente o Deus de amor e investe contra suas criaturas, feitas para o amor.

Note-se que:

· Se houver perigo de guerra e tiverem sido esgotados todos os recursos para evitá-la, é lícita a legítima defesa pela força militar. Todavia, para agir moralmente, muitas e graves são as condições para que se possa falar de autêntica legítima defesa, coisa que cabe aos poderes públicos decidir.

· Durante os conflitos armados não fica em absoluto suspensa a norma moral, como pensam os que, na guerra, julgam que tudo é lícito. A obediência cega não é suficiente para legitimar o extermínio de um povo, de uma nação ou de uma minoria étnica, o genocídio.

Deve-se fazer de tudo para evitar a guerra. Entretanto, favorece a guerra também por uma série de tomadas de posição que, em última análise, aos poucos, a preparam. Sobretudo as seguintes:

· A acumulação de armas, a corrida aos armamentos, o superarmamento, armas científicas, sobretudo atômicas, biológicas ou químicas.

· A produção e o comércio de armas, pelo perigo que representam para o bem comum, devem ser estritamente regulamentadas pelos governos.

· As injustiças, as desigualdades excessivas de ordem econômica ou social, a inveja, o orgulho, e de modo especial os grandes interesses econômicos que frequentemente se escondem por detrás de falsos objetivos apresentados ao mundo como promoção do bem social.

Conclusão: a guerra provoca a ruína de muitas consciências, e são sem número as ofensas graves a Deus e aos seres humanos. Ela está sempre à espreita do mundo, mas a caridade precisa vencer essa tentação, até que se cumpra a palavra do Senhor: chegará o tempo em que os homens, em vez de guerrear, irão “fundir as lanças, para delas fazer foices. Nenhuma nação pegará em armas contra a outra e nunca mais se treinarão para a guerra” (Isaías 2,4). Que assim seja!

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.




O QUINTO MANDAMENTO, OS ESCÂNDALOS, A SAÚDE...




O quinto mandamento se opõe também aos escândalos. Trata-se de uma falta de respeito à alma das pessoas. O escândalo consiste em tentar o próximo, opor-se à retidão da pessoa, arrastar o irmão à morte espiritual. O escândalo é pecado grave se, por ação ou omissão, conduzir deliberadamente alguém a uma falta grave.

Como qualquer falta, também o escândalo tem suas graduações. É tanto mais desastroso quanto maior for a autoridade de quem o pratica ou a fraqueza de alma dos que são envolvidos neles. “Quem escandalizar um só destes pequenos que creem em mim, melhor seria que lhe amarrassem ao pescoço uma pedra de moinho e o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos. É inevitável, sem dúvida, que eles ocorram, mas ai daquele que os provoca” (Mateus 18,6-7).

várias maneiras de escandalizar. O escândalo é mais grave quando é dado por pessoas que, por natureza ou função, devem ensinar e educar os outros. O escândalo pode ser provocado também por leis, instituições, pela moda, pela opinião... Tudo o que leva à degradação dos costumes, corrompe a vida religiosa das pessoas, prejudica o ambiente social de tal modo que torna difícil cumprir os Dez Mandamentos e viver segundo o Evangelho, tudo isso provoca escândalo.

Igualmente provocam escândalo chefes de empresas que em seus regulamentos incitam à fraude, professores que exasperam os alunos, os manipuladores da opinião pública. Todas essas atitudes são ocasiões de pecado para os mais fracos e, portanto, são ocasiões de escândalo.

O quinto Mandamento engloba também o cuidado pela saúde. Sim, porque a vida e a saúde são dons de Deus a fim de podermos cumprir nossa missão neste mundo. Precisamos cuidar delas equilibradamente, tendo em mente também as necessidades dos outros e o bem comum. Também faz parte da saúde o cuidado com o corpo, não, porém, de forma exagerada a ponto de fazer dele um ídolo.

Em questões de saúde e de cuidado com o corpo, é preciso evitar toda espécie de excesso, na comida, na bebida e em tudo o mais. Cabe à virtude da temperança manter sob controle tudo o que fazemos. Não falemos do uso da droga que causa gravíssimos danos à saúde e leva outras pessoas ao mal, com consequências enormes para as famílias, a sociedade e a própria pessoa que as consome. Quem as comercializa é responsável por gravíssimos danos morais.

A pesquisa científica também pode resultar em dano para a pessoa. De fato, trata-se de uma faca de dois gumes: experiências científicas, médicas ou psicológicas podem prestar enorme ajuda à saúde das pessoas. Lembre-se, porém, que experiências em seres humanos sempre exigem o consentimento do interessado ou de seus representantes legais. Por outro lado, elas não podem legitimar atos em si mesmos contrários à dignidade das pessoas. Nem o consentimento da pessoa envolvida no caso legitima tais tomadas de posição.

Essas experiências não são lícitas, se puserem em perigo a vida, a integridade física e psíquica da pessoa ou as levarem a correr riscos desproporcionais ou evitáveis por outras intervenções.

Quanto ao transplante de órgãos, é moralmente legítimo na medida em que os riscos a que se submete o doador não representem para ele grave prejuízo e, ao mesmo tempo, que haja probabilidade concreta de bom êxito em favor do destinatário. Sempre, porém, se exige o consentimento do doador ou de seus representantes legais. Doar órgãos após a morte é louvável. Mutilar a si mesmo é sempre moralmente inadmissível. – (Continua na próxima postagem).

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.


O QUINTO MANDAMENTO, ABORTO, EUTANÁSIA, SUICÍDIO...


O aborto é um caso de homicídio como os outros. Estamos cansados de ouvir por parte da Igreja, em particular dos últimos papas, que a vida é sagrada desde sua concepção até seu término natural. Isso exclui explicitamente o aborto. Se o feto não fosse um ser humano, teria Deus dito a Jeremias: “Antes de saíres do ventre, eu te consagrei, e fiz de ti profeta para as nações” (Jeremias 1,5)?

Desde o momento da concepção, o ser humano é pessoa e tem direito de ser respeitado como pessoa. Hoje, muitos defendem o aborto, mas a Igreja, fiel à Palavra de Deus, insiste, como já fazia no século I, conforme podemos ler num dos escritos mais antigos do Cristianismo, a Didaqué 2,2: “Não matarás o embrião por aborto e não farás perecer o recém-nascido”.

Há pessoas que cometem aborto tranquilamente, sem falarmos dos meios de comunicação social e dos governos que com frequência o incentivam. Não se pense que é a sociedade civil, a autoridade política, o Estado ou os governos que concedem os direitos às pessoas. Alguns direitos são inalienáveis e ninguém os concede a ninguém porque são inerentes à pessoa em razão do ato criador do qual ela se origina. Entre tais direitos está o direito à vida e à integridade física do ser humano, desde a concepção até sua morte natural.

Colaborar formalmente para um aborto também é ato grave. E a Igreja, não por falta de misericórdia – que ela nunca recusa a quem se arrepende sinceramente, mesmo no caso dos maiores crimes – mas para fazer compreender a gravidade do pecado cometido, estabelece que “quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre automaticamente em excomunhão” (Código de Direito Canônico c. 1398). Dessa excomunhão, só o bispo ou quem ele delegar é que pode absolver. Evidentemente, para alguém incorrer em excomunhão, é preciso ter consciência de que a Igreja pune o pecado de aborto com essa pena. Seja como for, o pecado de aborto é sempre gravíssimo.

As intervenções clínicas no que se refere à vida nascitura, enquanto se destinarem a preservar a vida, a curá-la, a defender sua integridade, são lícitas e até recomendáveis, como, por exemplo, o diagnóstico pré-natal. Ao contrário, tudo o que pretende eliminar a vida é imoral e, portanto, proibido pelo quinto mandamento.

Nesse sentido, “é imoral produzir embriões humanos destinados a serem explorados como material biológico disponível. Certas tentativas de intervenções sobre o patrimônio cromossômico ou genético não são terapêuticas, mas tendem à produção de seres humanos selecionados segundo o sexo ou outras qualidades preestabelecidas. Essas manipulações são contrárias à dignidade pessoal do ser humano, à sua integridade e à sua identidade única, não reiterável” (Catecismo da Igreja Católica n. 2274-2275).

E o que dizer da eutanásia? “Eutanásia” é palavra de origem grega que significa “morte serena”, isto é, sem sofrimento. Consiste em apressar a morte por motivos de piedade quando a pessoa está sofrendo muito ou não há esperanças de recuperação. Os defensores da eutanásia alegam também outros motivos para apressar a morte de alguém: por exemplo, se nasceu defeituoso, com doença incurável, se está idoso...

Seja qual fora o pretexto usado para aplicar a eutanásia, é sempre supressão da vida e, por isso, homicídio. Há casos em que o próprio paciente a solicita ou a aplica a si mesmo: neste caso trata-se de autêntico suicídio. É um pecado grave contra Deus autor da vida.

No caso de dever manter um paciente ligado a aparelhos caríssimos, há duas situações a considerar:

não há obrigação moral de manter procedimentos médicos caríssimos, perigosos, extraordinários ou desproporcionais aos resultados. A intenção, porém, não pode ser a de acelerar a morte, embora ela venha certamente. Assim mesmo, quem deve decidir é o paciente, se puder; caso contrário, seus responsáveis;

mesmo que a morte seja iminente, os cuidados comuns devidos a um doente nessa situação não podem ser interrompidos. Admite-se o uso de analgésicos para suavizar o sofrimento, mesmo que com isso os dias sejam abreviados, contanto que não sejam ministrados com o objetivo específico de apressar a morte.

Finalmente, a respeito do suicídio devemos dizer que não somos donos da nossa vida, ela nos foi dada por Deus, ela pertence a Deus. Cabe a ele dispor dela de uma forma ou de outra. Por isso, o suicídio é grave ofensa a Deus. Além disso, contradiz a própria inclinação natural do ser humano, que é sempre levado a conservar, defender e perpetuar a própria vida. O suicídio nega totalmente o amor a si mesmo; ofende o amor ao próximo porque rompe todos os vínculos de solidariedade com a família, a comunidade, a nação a humanidade. Cooperar com o suicídio de outrem também é falta moral.

Muitas vezes, porém, o suicídio é resultado de distúrbios psíquicos graves, angústia ou medo irreprimível ou sofrimento, etc. Isso, evidentemente, diminui a responsabilidade do suicida. Quanto à salvação do suicida, não nos cabe desesperar, porque Deus tem seus caminhos para ir ao encontro dessas pessoas. A Igreja reza pelas pessoas que se suicidam para que Deus, que é Pai de todos, as acolha em sua misericórdia. – (Continua nas próximas postagens).

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.




O QUARTO MANDAMENTO, AS AUTORIDADES CIVIS E OS CIDADÃOS


O quarto Mandamento engloba também os deveres das autoridades civis para com os cidadãos. Elas devem exercer a autoridade como um serviço e nada mais: “Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve” (Mateus 20,26). A autoridade tem sua origem em Deus, pois ela é necessária para o bem da humanidade. São Paulo recomendava: “Todos se submetam à autoridade dos que exercem o poder, pois não existe autoridade que não venha de Deus, e as autoridades que existem foram estabelecidas por Deus. Portanto, quem se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus” (Romanos 13,1). Este é o pensamento de Deus sobre a autoridade e sobre o uso que ela pode e deve fazer de seus poderes.

O Catecismo da Igreja Católica ensina: “Os poderes políticos devem respeitar os direitos fundamentais da pessoa humana. Exercerão humanamente a justiça no respeito pelo direito de cada um, principalmente das famílias e dos deserdados. Os direitos políticos ligados à cidadania podem e devem ser concedidos segundo as exigências do bem comum. Não podem ser suspensos pelos poderes públicos sem motivo legítimo e proporcionado. O exercício dos direitos políticos está destinado ao bem comum da nação e da comunidade humana” (n. 2237).

Também os cidadãos têm deveres para com as autoridades. Devem respeitar as autoridades. São Pedro ensina: “Subordinais-vos a toda autoridade humana por amor ao Senhor, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, que por ordem eles castigam os malfeitores e premiam os que fazem o bem. Pois a vontade de Deus é precisamente esta: que fazendo o bem, caleis a ignorância dos insensatos. Conduzi-vos como pessoas livres, mas sem usar a liberdade como pretexto para o mal. Pelo contrário, sede servos de Deus. Honrai a todos: aos irmãos, amai; a Deus, tende temor; ao rei, honrai” (1Pedro 2,13-17).

O cidadão deve“colaborar com os poderes civis para o bem da sociedade, num espírito de verdade, justiça solidariedade e liberdade. O amor e o serviço à pátria derivam do dever de gratidão e da ordem da caridade. A submissão às autoridades legítimas e o serviço do bem comum exigem que os cidadãos cumpram seu papel na vida da comunidade política” (Catecismo da Igreja Católica n. 2239). Tudo isto inclui, por exemplo, o pagamento dos impostos, o exercício do direito de voto, o serviço militar para a defesa do país. “Dai a cada um o que lhe é devido: seja imposto, seja taxa, ou também, o temor e o respeito” (Romanos 13,7). São Paulo ainda recomenda a Timóteo que se reze por todos, inclusive, “pelos reis e pelas autoridades em geral, para que possamos levar uma vida calma e tranquila, em toda piedade e dignidade”(1Timóteo 2,2).

É evidente que, às vezes, pode-se chamar atenção das autoridades. Pode-se e, às vezes, è indispensável. O respeito à autoridade não impede que os cidadãos manifestem com clareza e coragem tudo quanto é prejudicial à dignidade das pessoas e ao bem da comunidade. Sabemos que a sociedade caminha sempre mais para formas de maior ou menor violência na manifestação de suas reivindicações aos governantes. Por quê? Porque ela sabe que também é frequente as autoridades agirem no próprio interesse ou por corrupção, às avessas do espírito de serviço que deveria caracterizá-las. Aqui estamos longe do quarto mandamento e do Evangelho, infelizmente. E isto elimina a serenidade e a paz da sociedade.

Será que é possível também recusar obediência às autoridades? “O cidadão é obrigado em consciência a não seguir as prescrições das autoridades civis quando estes preceitos são contrários às exigências da ordem moral, aos direitos fundamentais das pessoas ou aos ensinamentos do Evangelho. A recusa de obediência às autoridades civis, quando suas exigências são contrárias às da reta consciência, funda-se na distinção entre o serviço a Deus e o serviço à comunidade política” (Catecismo da Igreja Católica n. 2242). De fato, Jesus disse: “Devolvei a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (Mateus 22,21). No caso de as autoridades oprimirem os cidadãos, estes devem acatar o que faz parte do bem comum, mas podem defender seus direitos e os dos outros contra quem está abusando do poder, sempre dentro dos limites da razão e do Evangelho. Os apóstolos não tiveram medo de dizer aos sumos sacerdotes que os interrogavam: “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5,29).

Em determinadas circunstâncias, os cidadãos também podem fazer resistência às autoridades, como nos casos de haver opressão do poder político. Quanto ao uso de armas, porém, só se recorrerá a elas com as seguintes condições, conforme as orientações do Catecismo da Igreja Católica n. 2243: se ocorrerem violações certas, graves e prolongadas dos direitos fundamentais; após terem sido esgotados todos os outros recursos; havendo esperança fundada de êxito; finalmente, se for impossível prever razoavelmente soluções melhores.

Finalmente, é o caso de perguntar: o que dizer das obrigações para com estrangeiros, que não são cidadãos? As nações que tiverem condições de acolher os estrangeiros em busca de condições melhores de vida devem acolhê-los. Por sua vez, o migrante deve respeitar o país que o acolher, obedecer à suas leis e contribuir financeiramente com ele, na medida do possível. No dia do julgamento seremos avaliados também pela sensibilidade que tivermos tido para com os estrangeiros, nos quais vive o próprio Jesus, conforme ele disse: “Eu era forasteiro, e me recebestes em casa” (Mateus 25,35). Essas palavras se referem tanto aos indivíduos quanto às sociedades, em particular aos governantes. Infelizmente, aumenta no mundo a discriminação contra os estrangeiros...

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.


O QUARTO MANDAMENTO E OS DEVERES DOS FILHOS PARA COM SEUS PAIS

O QUARTO MANDAMENTO E OS DEVERES DOS FILHOS PARA COM SEUS PAIS

FELIZ E SANTA PÁSCOA!





JESUS RESSUSCITADO, NOSSA VIDA, NOSSA ESPERANÇA!

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O primeiro dever dos filhos é o amor para com seus pais. “Do Pai... recebe o nome toda a paternidade no céu e na terra” (Efésios 3,14-15). Portanto, os pais recebem sua paternidade da paternidade do Pai celeste: eis a razão do grande respeito que Deus pede para com os pais. Assim, em primeiro lugar, devemos manifestar reconhecimento para com quem nos deu a vida, nos ama, trabalhou por nós, nos educou, nos encaminhou para a vida, gastou sua própria vida em nosso favor... às vezes sem receber contrapartida e gratidão. “De todo o coração honra teu pai e não te esqueças dos gemidos de tua mãe: tu lhes retribuirás o que fizeram por ti” (Eclesiástico 7,29-30). “Escuta teu pai que te gerou e não desprezes tua mãe envelhecida” (Provérbios 23,22).











Outra forma de respeito por quem nos deu a vida é a docilidade e a obediência: “Meu filho, guarda os preceitos de teu pai e não rejeites a instrução de tua mãe. Leva (esses preceitos) sempre atados ao teu coração, e pendurados ao teu pescoço. Quando caminhares, te guiarão; quando dormires, te guardarão e, quando acordares, falarão contigo” (Provérbios 6,20-22). “O filho sábio aceita a disciplina paterna; o insolente não ouve quando é advertido” (Provérbios 13,1). Quanto seria necessário inculcar estes conceitos em muitos filhos e filhas, hoje! “Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isto agrada ao Senhor” (Colossenses 3,20).











Embora haja diferença entre o modo de relacionar-se com os pais por parte dos filhos menores e daqueles que já são maiores, o amor e o respeito jamais podem faltar. Pelo contrário, os filhos maiores não se esqueçam de que, sobretudo na velhice, é hora de devolver aos pais os cuidados amorosos que deles receberam quando eram pequenos. O respeito pelos pais se prolonga também nos educadores que, em nome dos pais, trabalham pela boa formação de seus filhos.











É evidente, por sua vez, que os filhos adultos têm responsabilidades especiais para com os pais. Particularmente devem ajudar os pais na velhice, na doença, na solidão, nos momentos de angústia e de outras dificuldades. O texto acima citado de Eclesiástico 3,1-18 retorna aqui com uma série de recomendações para os filhos com relação a seus pais. Abandonar os pais idosos e doentes a si mesmos é um crime que brada aos céus, é o mesmo que voltar as costas àquele Deus que se serviu de nossos pais para nos comunicar a vida.











O quarto Mandamento também inclui o cultivo das relações entre irmãos e irmãs: se forem relações de respeito e amor, fazem do ambiente de família um lugar sereno e feliz, alegria para os pais: “Os netos são a coroa dos anciãos, como os pais são a glória dos filhos” (Provérbios 17,6). No caso dos cristãos, é preciso ter semelhante respeito e amor também para com o padre, o bispo, o papa, os catequistas, os professores, enfim, para com todos aqueles que nos ajudam a crescer e a nos tornarmos alguém na vida humana e cristã.













Na próxima postagem abordaremos os deveres dos pais para com seus filhos.


PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.





QUARTO MANDAMENTO: HONRAR PAI E MÃE









Os três primeiros Mandamentos se referem ao amor de Deus; a partir do quarto, os demais se referem ao amor do próximo. As pessoas mais próximas de cada um de nós são precisamente nosso pai e nossa mãe. Daí a razão do quanto Mandamento. De fato, na terra, as pessoas que personificam mais de perto e de forma mais intensa o amor do Pai celeste por nós são nossos pais. Eis, pois, o mandamento de Deus: “Honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos na terra que o Senhor teu Deus te dará” (Êxodo 20,12).







Jesus deu exemplo do cumprimento desse mandamento: aos 12 anos, depois ser encontrado por Maria e José no templo de Jerusalém onde permanecera conversando com os doutores da Lei, “desceu com seus pais para Nazaré e era obediente a eles” (Lucas 2,51). São Paulo lembra o dever dos filhos para com os pais: “Filhos, obedecei a vossos pais, pois isto é de justiça” (Efésios 6,1).







Isso é válido ainda hoje. Uma família em que os pais são amados e respeitados pelos filhos vive em harmonia, é o fundamento para o bem-estar geral e mesmo para a prosperidade. Ao passo que uma família em que os pais são desprezados, ali só nasce sofrimento, dor, desentendimento e ausência de qualquer bênção. Entretanto, se os filhos devem respeitar e amar seus pais, é preciso também que os pais se tornem dignos do amor e do respeito dos filhos. A ausência desse entendimento mútuo é um dos dramas atuais: muita juventude se perde por falta de clima familiar; muitos pais sofrem por falta de respeito filial. Daí a importância da família, o que também está ligado ao quarto Mandamento.







O pai e a mãe merecem tanto respeito porque Deus os tornou criadores do mundo junto com Ele; porque são os parceiros de Deus na multiplicação da família humana, a pedra fundamental dos lares. Ali se cria aos poucos a comunhão familiar, célula da sociedade e da Igreja, e que exprime em forma humana o mistério da comunhão trinitária.







Assim, entre os seres humanos, nada há de mais sagrado e que mereça maior veneração do que nossos pais. Ao nascermos, são seus braços que nos acolhem e estreitam ao peito, são seus beijos que nos enternecem, seus carinhos que nos acalmam... Todas essas atitudes amorosas dos pais são a expressão visível e sensível do amor do Pai celeste para conosco.







O que será que a Bíblia diz aos filhos que faltam de respeito aos pais? A Bíblia é severa com quem desrespeita os pais: “Quem amaldiçoar o pai ou a mãe será punido de morte” (Êxodo 21,17). Ainda: “Maldito, quem desprezar o pai ou a mãe!” (Levítico 27,16). Um texto que merece ser lido e meditado, e que convido você a ler com calma, é o do Livro do Eclesiástico 3,1-18: por ele nos damos conta de quanto Deus honra os pais e de quanto as bênçãos de Deus sobre os filhos dependem do amor e do respeito a seus pais. O texto se encerra com palavras muito fortes: “Como é infame quem desampara seu pai, e é amaldiçoado por Deus quem exaspera sua mãe!” (Eclesiástico 3,18). Afinal, Deus, que é fonte de vida, serviu-se de nossos pais para nos comunicar a vida. Como não honrar nossos pais, colaboradores de Deus e, sem os quais, não existiríamos?







Mas, atenção! O quarto Mandamento NÃO é só para os filhos. Ele abrange todas as relações de parentesco com os membros do grupo familiar, vivos e defuntos. Este mandamento também “manda prestar honra, afeição e reconhecimento aos avós e antepassados. Estende-se, enfim, aos deveres dos alunos para com seus professores, dos empregados com seus patrões, dos subordinados com seus chefes, dos cidadãos para com sua pátria e para com os que a administram ou governam. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, este Mandamento implica e subentende também os deveres dos pais, tutores, professores, chefes, magistrados, governantes, de todos os que exercem uma autoridade sobre outros ou sobre uma comunidade” (n. 2199). Isto é o que abordaremos nas próximas postagens.

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.






O Quarto Mandamento e os deveres dos PAIS para com seus filhos

O Quarto Mandamento e os deveres dos PAIS para com seus filhos


Os deveres dos pais para com seus filhos são muitos. Ser pai e mãe não é só questão de gerar os filhos. Sua missão continua a vida toda, particularmente no tempo da educação e formação deles, tanto no campo humano, quanto no campo espiritual. Se, de um lado, os pais têm essas graves obrigações para com os filhos, por outro, o direito e o papel de educadores e formadores dos filhos são algo fundamental e inalienável da parte deles, o que deve gerar consequências práticas na vida.







Por isso, os filhos devem ser considerados pelos pais como filhos de Deus e devem ser tratados como pessoas humanas. Portanto, é preciso educá-los integralmente, isto é, ajudá-los a se tornarem seres humanos autênticos e úteis aos outros, respeitosos de todos, enfim, dotados o mais possível das qualidades de um cidadão consciente. Enquanto filhos de Deus, precisam ser ajudados a compreender os fundamentos da religião, a observar a Lei de Deus e a cumprir seus compromissos religiosos. É, pois, dever dos pais providenciar para os filhos o atendimento de todas as suas necessidades físicas, materiais e espirituais a fim de que se tornem realmente pessoas humanas e filhos de Deus.





Os pais têm também responsabilidades específicas com relação ao lar. Para educar convenientemente os filhos, os pais devem procurar que sua casa seja um verdadeiro lar, impregnado de amor, ternura, perdão, respeito, fidelidade, serviço desinteressado. É ali que deverão exercitar os filhos na educação das virtudes. Esta formação exige esforço, dedicação, bom senso, critérios adequados, domínio de si, enfim, um conjunto de circunstâncias que ajudem os filhos a se formarem bem para a liberdade. Uma educação demasiado rígida não é a melhor forma de educar os filhos, como ensina São Paulo: “E vós, pais, não provoqueis revolta nos vossos filhos; antes, educai-os com uma pedagogia inspirada no Senhor” (Efésios 6,4). Nesse assunto, mais do que nunca, é importante o bom exemplo dos pais, pois os filhos aprendem mais imitando o que veem nos pais do que ouvindo suas recomendações. O lar deve também abrir a mente e o coração dos filhos para as responsabilidades humanas em geral e as comunitárias. Por outro lado, os filhos também hão de ser preparados para os perigos que a sociedade oferece.





Aqui cabe uma oportuna palavra sobre a violência na família. Qualquer tipo de violência é sempre condenada pelo Evangelho. É ainda mais condenável pelo fato de ocorrer dentro da família, que deve ser um lugar de amor e comunhão. Assinalemos aqui três comportamentos violentos que ocorrem com frequência nas famílias:



· maltratar os filhos de diversas maneiras: palavras duras, castigos exagerados (físicos ou de outra ordem), surras, provocar ferimentos e outras atitudes semelhantes;



· abusar deles sexualmente: fato gravíssimo que acontece dentro da própria família com muito mais frequência do que se imagina e que deixa na criança feridas que a farão sofrer por toda a vida;



· os filhos maltratarem os pais ou os pais se maltratarem entre si: ambas as faltas ferem o quarto e o quinto mandamento; ofender a esposa ou vice-versa, é bom ressaltar, é uma forma também de ofender o sacramento do Matrimônio, pois os esposos juraram perante Deus e a Igreja amor mútuo para sempre.





Os pais também precisam evangelizar os filhos. Foi com esta finalidade, entre outras, que os pais, pelo sacramento do Matrimônio, receberam graça especial de Deus. Os primeiros catequistas numa família devem ser os pais, pela palavra e pelo exemplo. Além de procurar fazer da família uma “Igreja doméstica”, os pais encaminharão os filhos para a vida da comunidade eclesial (paróquia ou comunidade menor), iniciando-os na catequese e na prática religiosa, no acesso aos sacramentos, na oração e, aos poucos, no discernimento da própria vocação. Esta é tarefa importantíssima, isto é, a educação para a fé dos próprios filhos. Se assim for, os filhos acabarão colaborando para o crescimento da santidade de seus próprios pais, criando entre eles um clima de amor mútuo, de perdão, de autêntica caridade cristã.





É fundamental também que os pais escolham para os filhos uma boa escola, que corresponda às suas convicções humanas e cristãs. Os poderes públicos têm obrigação de garantir esse direito dos pais e dar-lhes segurança para poderem exercer serenamente esse direito. Convém lembrar igualmente aos pais que os filhos, ao se tornarem adultos, têm o direito de escolher sua profissão e seu estado de vida. Neste ponto, os pais poderão aconselhar e sugerir, nunca impor. Por outro lado, também os filhos devem saber solicitar conselhos e orientações a seus pais.





Às vezes, há filhos ou filhas que não se casam para cuidar dos pais idosos ou doentes, ou para se dedicar exclusivamente a uma profissão ou por outros motivos louváveis. É uma forma também esta de contribuir para o bem da humanidade. E quando os filhos pretenderem seguir uma vocação religiosa ou sacerdotal, os pais que têm fé sentirão alegria em vez de tristeza ou de reagir de forma a desestimular os filhos no prosseguimento desse caminho. Afinal, a primeira vocação do cristão é a de seguir Jesus. “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E quem ama filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim” (Mateus 10,37).





O filho ou filha que seguem uma vocação específica na Igreja não deixam de amar seus pais, pelo contrário, eles os amam de uma forma ainda melhor, sob o olhar amoroso de Deus. Um dia São Pedro disse a Jesus: “Olha! Nós deixamos tudo e te seguimos. Que haveremos de receber? Jesus respondeu: ‘Em verdade vos digo, quando o mundo for renovado e o Filho do homem se sentar no trono de sua glória, também vós que me seguistes, havereis de sentar-vos em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai e mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna” (Mateus 19,22-29).



Na próxima postagem abordaremos o respeito devido às autoridades e aos cidadãos, o que também é requerido pelo quarto Mandamento.

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.


SEGUNDO MANDAMENTO: NÃO TOMAR SEU SANTO NOME EM VÃO


A Bíblia usa com frequência a palavra “nome” para designar o próprio Deus. Confiar o próprio nome a uma pessoa é sinal de amizade e intimidade, como Deus fez com Moisés (cf. Êxodo 3,13-14). Assim, entre a multiplicidade das verdades reveladas por Deus a seu povo, encontramos de modo específico a revelação do nome de Deus. Mas Ele exigiu que seu nome fosse respeitado: “Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Êxodo 207).

Respeitar o nome de Deus exige que tenhamos cuidado com nossas palavras quando nos referimos a Ele. Este segundo Mandamento, como o primeiro, se refere à virtude da religião: orienta-nos a não profanarmos com palavras as coisas santas, a começar pelo próprio Deus.

Todavia, o amor e o respeito pelo nome do Senhor exigem algo mais. Exigem, em particular, que as promessas sejam cumpridas, as blasfêmias e pragas evitadas. Vejamos:

• as promessas feitas em nome de Deus devem ser cumpridas com sinceridade. Não cumpri-las é o mesmo que pretender que Deus participe da nossa infidelidade: “É uma armadilha consagrar levianamente alguma coisa e, depois, arrepender-se da promessa” (Provérbios 20,25);

• a blasfêmia consiste em proferir contra Deus, em pensamento ou com a boca, palavras de ódio, de ofensa, de desafio, ou em falar mal de Deus, zombar do nome do Senhor. O mesmo vale para Jesus, a Igreja, os santos, as coisas sagradas. O Catecismo da Igreja Católica ensina: “É também blasfemo recorrer ao nome de Deus para encobrir práticas criminosas, reduzir povos à servidão, torturar ou matar. O abuso do nome de Deus para cometer um crime provoca a rejeição da religião. A blasfêmia... é em si um pecado grave” (n.2148);

• as pragas também são falta de respeito a Deus, pois por elas invoca-se o nome de Deus para desejar mal aos outros.

O amor e o respeito pelo nome do Senhor devem levar-nos também a evitar o juramento falso: consiste em invocar a Deus como testemunha da nossa mentira. Só se pode invocar a Deus como testemunha quando se trata de jurar a verdade. Mesmo assim, não se deve jurar por qualquer motivo fútil, como é muito comum.

Por sua vez, o perjúrio consiste em jurar por Deus com a intenção de não manter o juramento ou de violar a promessa feita sob juramento. Pior ainda quando alguém faz um juramento para cumprir uma obra má. Jurar falso é grave ofensa a Deus. Eis o que nos ensinou Jesus: “Ouvistes... o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos ao Senhor’. Eu, porém, vos digo: não jureis de modo algum... Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mateus 5,33-34.37).

Por motivos graves e com sinceridade, ponderando com responsabilidade caso por caso, é possível jurar por Deus. Há, porém, casos em que o juramento não deve ser feito. “A santidade do nome divino exige que não se recorra a ele para coisas fúteis e não se preste juramento em circunstâncias susceptíveis de ser interpretado como uma aprovação do poder que o exigisse injustamente. Quando o juramento é exigido por autoridades civis ilegítimas, pode-se recusá-lo. Deve ser recusado quando é pedido para fins contrários à dignidade das pessoas ou à comunhão da Igreja” (Catecismo da Igreja Católica n. 2155).

Finalmente, uma pergunta “interesseira”: terá Deus algo a ver com o nosso nome? Isaías diz: “Desde o seio materno, o Senhor me chamou, desde o ventre de minha mãe, já sabia meu nome” (Isaías 49,1). E ainda: “Não tenhas medo, que fui eu quem te resgatou, chamei-te pelo próprio nome, tu és meu!” (Isaías 43,1). Se Deus “conta o número das estrelas e chama cada uma pelo nome” (Salmo 147,4), imaginemos se ele não sabe o nosso nome!

O nosso nome nos foi dado no batismo que, por sua vez, nos foi administrado “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. E todos os dias, o cristão começa a jornada “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Jesus nos diz: “Ficai alegres porque vossos nomes estão escritos nos céus” (Lucas 10,20).

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.





OS MANDAMENTOS E O EVANGELHO








Antes de começar a tratar de cada um dos Dez Mandamentos, gostaria de dizer algumas palavras sobre duas questões: diferença existe entre os Mandamentos e o Evangelho? Por que os Mandamentos são dez?




Em primeiro lugar, deve-se dizer que o Evangelho é a continuação e o aperfeiçoamento dos Mandamentos. O próprio Jesus disse: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir” (Mateus 5,17).




A Carta aos Hebreus ensina: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (Hebreus 1,1-2). Portanto, deve-se compreender que o Filho de Deus, Jesus de Nazaré, é a perfeição da revelação do Antigo Testamento. Não há como optar pelos Mandamentos e rejeitar o Evangelho ou vice-versa; pelo contrário, no Evangelho encontramos aperfeiçoados todos os Mandamentos de Deus.




Aqui conviria ler por inteiro o Sermão da Montanha (cf. Mateus 5-7). A abertura é solene: Jesus proclama as Bem-aventuranças. Elas são a fina-flor da perfeição evangélica. A perfeição do Novo Testamento é mais exigente que a do Antigo. Por isso, para se fazer entender adequadamente a respeito de alguns pontos, Jesus diz: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás’ [...] ‘Não cometerás adultério’ [...] ‘Quem despedir sua mulher dê-lhe um atestado de divórcio’ [...] ‘Não jurarás falso’ [...] ‘Olho por olho, dente por dente’ [...] ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’”... A todos estes mandamentos, digamos, à “moda do Antigo Testamento”, Jesus contrapõe os mandamentos à “moda do Evangelho”, com estas palavras: “Eu, porém, vos digo”.... Dessa forma, Ele corrige e aperfeiçoa as limitações dos Dez Mandamentos da Antiga Aliança.




Além de aperfeiçoar os Mandamentos de Deus, Jesus os sintetizou em poucas palavras que os resumem a todos. Um fariseu lhe perguntou: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (Mateus 22,36-40). Usando palavras semelhantes, Jesus os condensou dessa forma: “Tudo quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas.” (Mateus 7,12). Por sua vez, São Paulo ensina que “o amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (Romanos 13,10).




Foi este o mandamento antigo que Jesus na última ceia chamou de mandamento novo e que nos deixou como sua suprema vontade: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (João 13,34). Este é o coração da perfeição do Evangelho!




De tudo isto tira-se a seguinte conclusão: quem quiser buscar a perfeição proposta por Jesus não pode limitar-se ao cumprimento do mínimo dos mínimos. Os fariseus e escribas é que mediam até onde podiam chegar sem cometer pecado... Jesus advertiu seus discípulos contra esse perigo: “Eu vos digo: se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mateus 5,20).




Jesus nos convida ao máximo possível: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus 5,48). Não basta evitar o pecado, não basta ser bom, é preciso esforçar-se para ser sempre melhor. Evidentemente, para isso, precisamos da ajuda do Senhor, como ele mesmo afirmou: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15,5).




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E agora encaremos a segunda questão: por que os Mandamentos são dez?




Os Mandamentos, chamados também de Decálogo – o que significa “Dez Palavras” – como vimos, exprimem a vontade de Deus para seu povo Israel. A Bíblia apresenta duas redações dos Mandamentos: a do Livro do Êxodo, mais longa (cf. Êxodo 20,2-17) e a do Livro do Deuteronômio, mais breve (cf. Deuteronômio 5,6-21). Para fins de catequese e fácil memorização, a Igreja os sintetizou em Dez:




Amar a Deus sobre todas as coisas




Não tomar seu santo nome em vão




Guardar domingos e festas de guarda




Honrar pai e mãe




Não matar




Não pecar contra a castidade




Não furtar




Não levantar falso testemunho




Não desejar a mulher do próximo




Não cobiçar as coisas alheias








A Bíblia nos relata a forma como Deus entregou a Moisés os Dez Mandamentos. “O Senhor disse a Moisés: ‘Sobe para junto de mim no monte e fica ali. Eu quero dar-te as tábuas de pedra, a Lei e os mandamentos que escrevi para que instruas o povo´” (Êxodo 24,12). São as famosas Tábuas da Lei. Numa constavam os três primeiros mandamentos, que se referem ao amor a Deus; na outra, os demais sete, referentes ao amor do próximo.








É importante também compreender qual era o sentido dos Dez Mandamentos no Antigo Testamento. Ao libertar o povo de Israel do Egito, Deus o conduziu ao deserto e ali lhe propôs uma Aliança. O intermediário foi Moisés. Após seu encontro com Deus no alto do monte Sinai, “Moisés foi transmitir ao povo todas as palavras e os decretos do Senhor” (Êxodo 24,3). O povo se comprometeu a cumprir os Mandamentos de Deus.








Em seguida, a Aliança foi concluída com a celebração de holocaustos e sacrifícios. Moisés “tomou o livro da Aliança e o leu em voz alta ao povo, que respondeu: ‘Faremos tudo o que o Senhor falou e obedeceremos’. Moisés pegou, então, o sangue, aspergiu com ele o povo e disse: ‘Este é o sangue da Aliança que o Senhor fez convosco’” (Êxodo 24,7-8). A essência da Aliança era esta: o povo reconheceria Javé como seu único Deus e o adoraria como tal (portanto não reconheceria a existência de outros deuses e não adoraria seus ídolos), e Deus faria de Israel o seu povo escolhido, o amaria com predileção, protegeria, defenderia, caminharia com ele em todo tempo e lugar (cf. Êxodo 19-24).




Isto tudo continua valendo também para nós, pois a vontade de Deus passou pela mente, pelo coração e pelos lábios de Jesus, o novo Moisés. Por isso, somos convidados a assumirmos o compromisso de cumprir integralmente os Dez Mandamentos como expressão da vontade do nosso Pai que nos falou em seu Filho Jesus. Eles são o único código da Aliança e providenciam o bem total do ser humano. Diz São Tiago: “Quem pretende observar a Lei inteira, mas comete transgressão num só ponto, torna-se culpado contra toda a Lei” (Tiago 2,10). De fato, o mesmo Deus que mandou um mandamento, mandou também os outros, e o bem do ser humano que os Mandamentos promovem, não seria totalmente bem se faltasse uma parte dele.




O Catecismo da Igreja Católica ensina: “Visto que exprimem os deveres fundamentais do homem para com Deus e para com o próximo, os Dez Mandamentos revelam, em seu conteúdo primordial, obrigações graves. São essencialmente imutáveis e sua obrigação vale sempre e em toda parte. Ninguém pode dispensar-se deles. Os Dez Mandamentos estão gravados por Deus no coração do ser humano” (CIC n. 2072).




Disto dá testemunho São Paulo escrevendo aos Romanos. “Quando os pagãos, embora não tenham a Lei, cumprem o que a Lei prescreve, guiados pelo bom senso natural, esses que não têm a Lei tornam-se Lei para si mesmos. Por sua maneira de proceder, mostram que a Lei está inscrita em seus corações: disso dão testemunho igualmente sua consciência e os juízos éticos de acusação ou de defesa que fazem uns dos outros” (Romanos 2,14-16). Dessa forma, nem mesmo os pagãos podem desculpar-se totalmente pelo mal que cometem, pois a consciência deles os adverte e repreende quando o praticam.




Encerrando, rezemos com a Bíblia: Senhor, “de todo o coração eu vos procuro; não permitais que eu me aparte de vossos mandamentos. Guardo no fundo do meu coração a vossa palavra, para não vos ofender. Sede bendito, Senhor, ensinai-me vossas leis... Hei de deleitar-me em vossas leis, e jamais esquecerei vossas palavras” (Salmo 118,9-12.16).

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.