DÉCIMO MANDAMENTO: NÃO COBIÇAR AS COISAS ALHEIAS
Este mandamento é um complemento e, de certa forma, a repetição do nono, que manda não desejar a esposa (igualmente o esposo!) de outrem, aliás, coisa muito comum hoje: o famoso assédio sexual. Diz a Bíblia: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma do que lhe pertença” (Êxodo 20,17).
São Tiago diz que toda forma de cobiça nasce do coração. A cobiça dos bens alheios está na raiz do roubo, da rapina, da fraude, enfim, de tudo o que o sétimo mandamento condena. A “concupiscência dos olhos” (1 João 2,16) está na raiz da violência e da injustiça, condenadas pelo quinto mandamento. A cobiça é uma forma de idolatria, vê o bem desejado como uma espécie de deus; o mesmo se dá com a fornicação e a própria idolatria, proibidas pelos três primeiros mandamentos.
Em resumo, o décimo mandamento, junto com o nono, zela pela pureza integral do coração e resume todos os mandamentos da Lei. Por que? Porque só um coração puro e reto ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Por isso, o décimo mandamento proíbe uma série de atitudes negativas. Nossos apetites em si são indiferentes. Quando, porém, passam da medida, nos levam a cobiçar o que não nos pertence ou a ter desejos imoderados. Por isso, o décimo mandamento proíbe particularmente:
A avidez, que consiste no desejo exagerado de apropriar-se dos bens terrenos.
A cupidez ou cobiça, que consiste numa paixão desmedida pela posse de riquezas e de poder, e que leva as pessoas a nunca se saciarem de coisas: “Quem ama o dinheiro, dele não se fartará” (Eclesiastes 5,9). E São Paulo acrescenta: “Na verdade, a raíz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1 Timóteo 6,10). Esta é a grande tentação daqueles que, contanto que tenham elevados lucros, até anseiam por situações de miséria e sofrimento a fim de poder explorá-las.
A inveja, que consiste na tristeza que se sente diante do bem dos outros e do forte desejo que se tem de apropriar-se dele. Quando se deseja um mal grave, é pecado grave. Lembremos aqui a história de Davi, que se deixou levar pela inveja e se apropriou da mulher de Urias, e como Deus o castigou: veja o episódio em 2 Samuel 11-12. Foi a inveja que levou o diabo a tentar nossos primeiros pais, como também foi por inveja que Caim matou Abel... Santo Agostinho diz que a inveja é “o pecado diabólico por excelência”. E São Gregório Magno afirma que “da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do próximo e o desprazer causado por sua prosperidade”. A inveja é um dos sete vícios capitais.
Como reação às nossas más inclinações, devemos alimentar bons desejos em nosso coração. Diz São Paulo: “Como homem interior, ponho toda a minha satisfação na Lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me aprisiona na lei do pecado, que está nos meus membros” (Romanos 7,22-23). Esta é a situação de todos nós, este é o conflito que todos nós devemos enfrentar.
Como? São Paulo pergunta e ele mesmo responde: “Quem me libertará deste corpo de morte? Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 7,24-25). E Jesus, com sua morte, pregou na cruz todo pecado, convidando-nos a fazer o mesmo, como diz ainda São Paulo: “Os que pertencem a Jesus Cristo crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos” (Gálatas 5,24).
Além de Cristo morrer na cruz para nos livrar do pecado, o próprio São Paulo acrescenta ao texto apenas citado: “Se vivemos pelo Espírito, procedamos também de acordo com o Espírito” (Gálatas 5,25). Portanto, o Espírito Santo é nosso grande defensor contra o mal e aquele que alimenta em nós os desejos do bem.
Como dar lugar no coração aos desejos do bem? Esvaziando o próprio coração. Jesus proclamou: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5,3). Disse também: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,33). A pobreza segundo Evangelho é condição indispensável para ter o coração livre e possuir o Reino. Só um coração livre das coisas terrenas pode ser guiado pelo Espírito Santo.
O uso dos bens terrenos é lícito e necessário, mas é preciso cuidar para que ele não sufoque o coração por desejos desmedidos. É bom lembrar que cada Bem-aventurança, na redação de São Lucas, vem acompanhada por uma correspondente maldição: “Ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! Ai de vós que agora estais fartos, porque passareis fome!” (Lucas 6,24-25). Por isso, é fundamental o abandono nas mãos da Providência do Pai: leia o belo texto de Mateus 6,25-34.
O único que pode saciar o coração humano é Deus. No início de seu famoso livros “Confissões”, Santo Agostinho diz de forma muito apropriada e bela: “O nosso coração, Senhor, foi feito para ti e ele está inquieto enquanto não repousar em ti”. Só Deus pode saciar a sede de nosso coração de possuir o mais possível, isto é, a felicidade perfeita. Na Bíblia, ver é possuir. Assim, o maior desejo que podemos alimentar em nosso coração é o de ver a Deus.
Por isso, terminemos com esta belíssima passagem de Santo Agostinho: “Aí (no céu) haverá a verdadeira glória; ninguém será louvado então por engano ou bajulação; as verdadeiras honras não serão recusadas àqueles que as merecem, nem concedidas aos indignos; aliás, nenhum indigno terá tal pretensão, pois só quem é digno será admitido. Aí reinará a verdadeira paz, onde ninguém será sujeito à oposição nem de si mesmo nem dos outros. Da virtude, o próprio Deus será a recompensa, Ele que deu a virtude e se prometeu a si mesmo como a recompensa (para ela) melhor e maior que possa existir: "Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo" (Levítico 26,12). É também o sentido das palavras do Apóstolo: "Para que Deus seja tudo em todos" (1 Coríntios 15,12). Ele mesmo será o fim de nossos desejos, aquele que contemplaremos sem fim, amaremos sem sociedade, louvaremos sem cansaço. E esse dom, essa afeição, essa ocupação serão certamente como a vida eterna, comuns a todos”.
PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.
PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.


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