sábado, 10 de novembro de 2012

Catequese de Bento XVI 17/10/12

Ano da Fé nas Catequeses de Bento XVI
Novo Ciclo de Catequeses: "O Ano da Fé"
1a. Catequese - 17 de Outubro de 2012



A preocupação de Bento XVI com a descristianização que vai tomando conta de boa parte de mundo cristianizado, com a desastrosa perda dos valores humanos e cristãos, fez surgir em seu coração de Pai e Pastor, a feliz iniciativa de istituir para toda a Igreja
o "Ano da Fé", por Ele inaugurado em Roma no dia 11 de outubro passado, cinqüentenário do Concílio Vaticano II e que se estendenrá até a festa de Cristo Rei do proximo ano, 24 de novembro de 2013.

Na carta Apostólica "A Porta da Fé", lembrando o início de seu Pontificado afirma "lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidencia sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo".
E ainda "A Igreja no seu conjunto e os Pastores nela, como Cristo devem por-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para aquele que da a vida, a vida em plenitude" (PF n.1).
É precisamente o que faz o Papa, como Bom Pastor, no intuido de nos ajudar a viver o "Ano da Fé", oferecendo-nos um novo siclo suas catequeses que se inserem no contexto desse ano.

Agradecemos ao Santo Padre comprometendo-nos filialmente com seus preciosos ensinamentos.
A seguir a Catequese do Papa de 17 de outubro passado

XXXXX  -  XXXXX


Queridos irmãos e irmãs,

Hoje gostaria de introduzir o novo ciclo de catequeses, que se desenvolve ao lonto de todo o Ano da fé, recém-iniciado, e que interrompe — durante este período — o ciclo dedicado à escola da oração. Mediante a Carta Apostólica Porta Fidei proclamei este Ano especial, precisamente para que a Igreja renove o entusiasmo de crer em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, reavive a alegria de percorrer o caminho que nos indicou e testemunhe de modo concreto a força transformadora da fé.

A celebração do cinquentenário da inauguração do Concílio Vaticano II é uma ocasião importante para voltar para Deus, a fim de aprofundar e viver com maior coragem a própria fé, para fortalecer a pertença à Igreja, «mestra em humanidade» que, através do anúncio da Palavra, da celebração dos Sacramentos e das obras de caridade, nos orienta para encontrar e conhecer Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Trata-se do encontro não com uma ideia, nem com um projecto de vida, mas com uma Pessoa viva que nos transforma em profundidade a nós mesmos, revelando-nos a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus. O encontro com Cristo renova os nossos relacionamentos humanos, orientando-os no dia-a-dia para uma maior solidariedade e fraternidade, na lógica do amor. Ter fé no Senhor não é algo que interessa unicamente à nossa inteligência, ao campo do saber intelectual, mas é uma mudança que compromete a vida, a totalidade do nosso ser: sentimento, coração, inteligência, vontade, corporeidade, emoções e relacionamentos humanos. Com a fé muda verdadeiramente tudo em nós e para nós, e revela-se com clareza o nosso destino futuro, a verdade da nossa vocação no interior da história, o sentido da vida, o gosto de sermos peregrinos rumo à Pátria celeste.

Mas — perguntemo-nos — a fé é verdadeiramente a força transformadora da nossa vida, na minha vida? Ou então é apenas um dos elementos que fazem parte da existência, sem ser aquele determinante, que a abrange totalmente? Com as catequeses deste Ano da fé gostaríamos de percorrer um caminho para fortalecer ou reencontrar a alegria da fé, compreendendo que ela não é algo de alheio, separado da vida concreta, mas é a sua alma. A fé num Deus que é amor, e que se fez próximo do homem, encarnando e doando-se a si mesmo na cruz para nos salvar e reabrir as portas do Céu, indica de modo luminoso que a plenitude do homem consiste unicamente no amor. Hoje é necessário reiterá-lo com clareza, enquanto as transformações culturais em curso mostram com frequência tantas formas de barbárie, que passam sob o sinal de «conquistas de civilização»: a fé afirma que não há humanidade autêntica, a não ser nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas como o homem é animado pelo amor que vem de Deus, se expressa como dom, se manifesta em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e de serviço abnegado ao próximo. Onde existe domínio, posse, exploração, mercantilização do outro por egoísmo próprio, onde há arrogância do eu, fechado em si mesmo, o homem torna-se pobre, degradado, desfigurado. A fé cristã, laboriosa na caridade e forte na esperança, não limita mas humaniza a vida, aliás, torna-a plenamente humana.

A fé é o acolhimento desta mensagem transformadora na nossa vida, o acolhimento da revelação de Deus, que nos faz conhecer quem Ele é, como age, quais são os seus desígnios para nós. Sem dúvida, o mistério de Deus permanece sempre além dos nossos conceitos e da nossa razão, dos nossos ritos e das nossas preces. Todavia, com a revelação é o próprio Deus quem se autocomunica, se descreve, se torna acessível. E nós tornamo-nos capazes de ouvir a sua Palavra e de receber a sua verdade. Eis, pois, a maravilha da fé: Deus, no seu amor, cria em nós — através da obra do Espírito Santo — as condições adequadas para que possamos reconhecer a sua Palavra. O próprio Deus, na sua vontade de se manifestar, de entrar em contacto connosco, de se fazer presente na nossa história, torna-nos capazes de o ouvir e acolher. São Paulo exprime-o assim, com alegria e reconhecimento: «Nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes a palavra de Deus, que de nós ouvistes, e porque a acolhestes não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, palavra de Deus, que age eficazmente em vós, fiéis» (1 Ts 2, 13).

Deus revelou-se mediante palavras e obras em toda uma longa história de amizade com o homem, que culmina na Encarnação do Filho de Deus e no seu Mistério de Morte e Ressurreição. Deus não só se revelou na história de um povo, nem falou só por meio dos Profetas, mas atravessou o seu Céu para entrar na terra dos homens como homem, para que pudéssemos encontrá-lo e ouvi-lo. E de Jerusalém o anúncio do Evangelho da salvação propagou-se até aos confins da terra. A Igreja, nascida do lado de Cristo, tornou-se portadora de uma esperança nova e sólida: Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado, Salvador do mundo, que está sentado à direita do Pai e é Juiz dos vivos e dos mortos. Este é o kerigma, o anúncio central e impetuoso da fé. Mas desde o início levantou o problema da «regra da fé», ou seja, da fidelidade dos crentes à verdade do Evangelho, na qual permanecer firmes, à verdade salvífica sobre Deus e sobre o homem, que se deve conservar e transmitir. São Paulo escreve: «Recebereis a salvação, se o mantiverdes [o Evangelho] como vo-lo anunciei. Caso contrário, em vão teríeis abraçado a fé» (1 Cor 15, 2).

Mas onde encontramos a fórmula essencial da fé? Onde encontramos as verdades que nos foram fielmente transmitidas e que constituem a luz para a nossa vida diária? A resposta é simples: no Credo, na Profissão de Fé, ou Símbolo da Fé, nós relacionamo-nos com o acontecimento originário da Pessoa e da História de Jesus de Nazaré; torna-se concreto quanto o Apóstolo das nações dizia aos cristãos de Corinto: «Transmiti-vos primeiramente o que eu mesmo tinha recebido: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia» (1 Cor 15, 3-4).

Ainda hoje temos necessidade que o Credo seja melhor conhecido, compreendido e pregado. Sobretudo, é importante que o Credo seja, por assim dizer, «reconhecido». Com efeito, conhecer poderia ser algo simplesmente intelectual, enquanto «reconhecer» quer significar a necessidade de descobrir o vínculo profundo entre as verdades que professamos no Credo e a nossa existência quotidiana, para que estas verdades sejam deveras e concretamente — como sempre foram — luz para os passos do nosso viver, água que rega a aridez do nosso caminho, vida que vence certos desertos da vida contemporânea. No Credo insere-se a vida moral do cristão, que nele encontra o seu fundamento e a sua justificação.

Não é por acaso que o Beato João Paulo II quis que o Catecismo da Igreja Católica, norma segura para o ensinamento da fé e fonte certa para uma catequese renovada, se inspirasse no Credo. Tratava-se de confirmar e conservar este núcleo fulcral das verdades da fé, comunicando-o numa linguagem mais inteligível aos homens do nosso tempo, a nós. É um dever da Igreja transmitir a fé, comunicar o Evangelho, a fim de que as verdades cristãs sejam luz das novas transformações culturais, e os cristãos se tornem capazes de explicar a razão da sua esperança (cf. 1 Pd 3, 14). Hoje, vivemos numa sociedade profundamente transformada, também em relação a um passado recente, e em movimento contínuo. Os processos da secularização e de uma difundida mentalidade niilista, em que tudo é relativo, marcaram profundamente a mentalidade comum. Assim, a vida é muitas vezes levada com superficialidade, sem ideais claros nem esperanças sólidas, no contexto de vínculos sociais e familiares fluidos, provisórios. Sobretudo as novas gerações não são educadas para a busca da verdade e do sentido profundo da existência, que ultrapasse o contingente, para a estabilidade dos afectos, para a confiança. Ao contrário, o relativismo leva a não ter pontos firmes, suspeita e volubilidade provocam rupturas nos relacionamentos humanos, enquanto a vida é vivida com experiências que duram pouco, sem assunção de responsabilidade. Se o individualismo e o relativismo parecem dominar o espírito de muitos contemporâneos, não se pode dizer que os crentes permanecem totalmente imunes a estes perigos, que devemos enfrentar na transmissão da fé. A sondagem realizada em todos os Continentes, em vista da celebração do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, evidenciou alguns: uma fé vivida de modo passivo e privado, a rejeição da educação para a fé, a ruptura entre vida e fé.

Muitas vezes o cristão não conhece nem sequer o núcleo central da própria fé católica, do Credo, de modo a deixar espaço a um certo sincretismo e relativismo religioso, sem clareza sobre as verdades nas quais crer e sobre a singularidade salvífica do cristianismo. Hoje não está muito distante o risco de construir, por assim dizer, uma religião personalizada. Ao contrário, temos que voltar para Deus, para o Deus de Jesus Cristo, temos que redescobrir a mensagem do Evangelho, fazê-lo entrar de modo mais profundo nas nossas consciências e na vida quotidiana.

Nas catequeses deste Ano da fé gostaria de oferecer uma ajuda para percorrer este caminho, para retomar e aprofundar as verdades centrais da fé sobre Deus, o homem, a Igreja e toda a realidade social e cósmica, meditando e ponderando sobre as afirmações do Credo. E gostaria que fosse clara que estes conteúdos ou verdades da fé (fides quae) se relacionam directamente com a nossa vida; exigem uma conversão da existência, que dá vida a um novo modo de crer em Deus (fides qua). Conhecer Deus, encontrá-lo, aprofundar os traços da sua Face põe em jogo a nossa vida, pois Ele entra nos dinamismos profundos do ser humano.

Possa o caminho que percorreremos este Ano fazer-nos crescer todos na fé e no amor a Cristo, para que aprendamos a viver, nas opções e gestos quotidianos, a vida boa e bela do Evangelho. Obrigado!



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Cinqüentenário do Concílio Vaticano II

Cinqüentenário do Concílio Vaticano II


Na Vigília do Cinqüentenário do Concílio Vaticano II, o Santo Padre Bento XVI dedicou sua catequese de 10 de outubro passado, a esse memoravel acontecimento eclesial do qual foi sua Santidade testemunha direta.
Lembrando o Beato João Paulo II, o Papa nos convida a retomar o Concílio Vaticano II, tendo nele uma búlsula segura a nos orientar neste desafiante Terceiro Milênio.
Acolhamos de mente e coração abertos a Palava de nosso Pai e Pastor


Queridos irmãos e irmãs,
Estamos na vigília do dia em que celebraremos os cinquenta anos da inauguração do Concílio Ecuménico Vaticano II e o início do Ano da fé. Com esta Catequese, gostaria de começar a meditar — com alguns pensamentos breves — sobre o grande acontecimento eclesial que foi o Concílio, evento do qual fui testemunha directa. Ele, por assim dizer, manifesta-se-nos como um grande afresco, pintado na sua grandiosa multiplicidade e variedade de elementos, sob a guia do Espírito Santo. E como diante de um grande quadro, daquele momento de graça ainda hoje continuamos a receber a riqueza extraordinária, a redescobrir particulares aspectos, fragmentos e elementos.

No limiar do terceiro milénio, o Beato João Paulo II escreveu: «Sinto ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa» (Carta Apost. Novo millennio ineunte, 57). Penso que esta imagem é eloquente. Os documentos do Concílio Vaticano II, sobre os quais é preciso meditar, libertando-os de um excesso de publicações que muitas vezes, em vez de os dar a conhecer, os esconderam, são também para o nosso tempo uma bússola que permite à barca da Igreja fazer-se ao largo, no meio de tempestades ou de ondas calmas e tranquilas, para navegar com segurança e chegar à meta.

Recordo bem aquele período: eu era um jovem professor de teologia fundamental na Universidade de Bonn, e foi o Arcebispo de Colónia, Cardeal Frings, para mim um ponto de referência humano e sacerdotal, que me trouxe consigo a Roma como seu teólogo consultor; depois, fui também nomeado perito conciliar. Para mim foi uma experiência singular: após todo o fervor e entusiasmo da preparação, pude ver uma Igreja viva — quase três mil Padres conciliares de todas as partes do mundo, reunidos sob a guia do Sucessor do Apóstolo Pedro — que se põe na escola do Espírito Santo, o verdadeiro motor do Concílio. Raras vezes na história foi possível como então, quase «tocar» concretamente a universalidade da Igreja num momento da grande realização da missão de levar o Evangelho a todos os tempos e até aos confins da terra. Nestes dias, se virdes as imagens da abertura dessa grande Assembleia, através da televisão ou dos outros meios de comunicação, podereis sentir também vós a alegria, a esperança e o encorajamento que infundiu em todos nós a participação nesse acontecimento de luz, que se irradia até hoje.

Na história da Igreja, como julgo que sabeis, vários Concílios precederam o Vaticano II. Geralmente, estas grandes Assembleias eclesiais foram convocadas para definir elementos fundamentais da fé, sobretudo corrigindo erros que a punham em perigo. Pensemos no Concílio de Niceia, em 325, para contrastar a heresia ariana e confirmar com clareza a divindade de Jesus, Filho Unigénito de Deus Pai; ou no de Éfeso, em 431, que definiu Maria como Mãe de Deus; no de Calcedónia, em 451, que afirmou a única Pessoa de Cristo em duas naturezas, divina e humana.

Para chegar mais próximo de nós, temos que mencionar o Concílio de Trento, no século XVI, que esclareceu pontos essenciais da doutrina católica diante da Reforma protestante; ou então o Vaticano i, que começou a meditar sobre várias temáticas, mas só teve o tempo de produzir dois documentos, um sobre o conhecimento de Deus, a revelação, a fé e as relações com a razão, e o outro sobre o primado do Papa e sobre a infalibilidade, porque foi interrompido pela ocupação de Roma em Setembro de 1870.

Se olharmos para o Concílio Ecuménico Vaticano II, veremos que naquele momento do caminho da Igreja não havia particulares erros de fé para corrigir ou condenar, nem questões específicas de doutrina ou de disciplina para esclarecer. Então, pode-se compreender a surpresa do pequeno grupo de Cardeais presentes na sala capitular do mosteiro beneditino em São Paulo fora dos Muros quando, a 25 de Janeiro de 1959, o Beato João XXIII anunciou o Sínodo diocesano para Roma e o Concílio para a Igreja Universal.

A primeira questão que se apresentou na preparação deste grande acontecimento foi precisamente como começá-lo, qual tarefa específica atribuir-lhe. No discurso de inauguração, a 11 de Outubro de há cinquenta anos, o Beato João XXIII deu uma indicação geral: a fé devia falar de um modo «renovado», mas incisivo — porque o mundo estava a mudar rapidamente — mas mantendo intactos os seus conteúdos perenes, sem concessões nem comprometimentos. O Papa desejava que a Igreja meditasse sobre a sua fé, as verdades que a guiam.

Mas desta reflexão séria e aprofundada sobre a fé, devia ser delineada de modo novo a relação entre a Igreja e a era moderna, entre o Cristianismo e certos elementos essenciais do pensamento moderno, não para se conformar com ele, mas para apresentar a este nosso mundo, que tende a afastar-se de Deus, a exigência do Evangelho em toda a sua grandeza e pureza (cf. Discurso à Cúria Romana para os votos de Natal, 22 de Dezembro de 2005). Indica-o muito bem o Servo de Deus Paulo VI na homilia no final da última sessão do Concílio — a 7 de Dezembro de 1965 — com palavras extraordinariamente actuais quando afirma que, para avaliar bem este evento, «deve ser visto no tempo em que se verificou.

Com efeito — diz o Papa — aconteceu numa época em que, como todos reconhecem, os homens estão atentos ao reino da terra, mais do que ao reino dos céus; um tempo, acrescentemos, em que o esquecimento de Deus se faz habitual, como que sugerido pelo progresso científico; um tempo em que o acto fundamental da pessoa humana, tornada mais consciente de si mesma e da própria liberdade, tende a reivindicar a própria autonomia absoluta, libertando-se de toda a lei transcendente; um tempo em que o “laicismo” é considerado a consequência legítima do pensamento moderno e a norma mais sábia para o ordenamento temporal da sociedade...

Neste tempo celebrou-se o nosso Concílio para louvor de Deus, em nome de Cristo, inspirador o Espírito Santo». Assim dizia Paulo VI. E concluía, indicando na questão de Deus o ponto central do Concílio, aquele Deus que «existe realmente, vive, é uma pessoa, é próvido, é infinitamente bom; aliás, não só bom em Si, mas bom imensamente também para nós, é nosso Criador, nossa verdade, nossa felicidade, a tal ponto que o homem, quando si esforça por fixar a mente e o coração em Deus, na contemplação, realiza o gesto mais excelso e mais cheio do seu espírito, o acto que ainda hoje pode e deve ser o ápice dos inúmeros campos da actividade humana, do qual eles recebem a sua dignidade» (aas 58 [1966], 52-53).

Vemos como o tempo no qual vivemos continua a estar marcado pelo esquecimento e a surdez em relação a Deus. Então, penso que devemos aprender a lição mais simples e mais fundamental do Concílio, ou seja, que o Cristianismo na sua essência consiste na fé em Deus, que é Amor trinitário, e no encontro pessoal e comunitário com Cristo que orienta e guia a vida: tudo o resto é consequência. O mais importante hoje, precisamente como era o desejo dos Padres conciliares, é que se veja — de novo, com clareza — que Deus está presente, nos diz respeito e nos responde. E que, ao contrário, quando falta a fé em Deus, desaba o que é essencial, porque o homem perde a sua dignidade profunda e aquilo que enobrece a sua humanidade, contra qualquer reducionismo.

O Concílio recorda-nos que a Igreja, em todos os seus componentes, tem a sua tarefa, o mandato de transmitir a palavra do amor de Deus que salva, para que seja ouvida e acolhida a chamada divina que contém em si a nossa bem-aventurança eterna.

Considerando nesta luz a riqueza contida nos documentos do Vaticano II, gostaria de mencionar as quatro Constituições, quase os quatro pontos cardeais da bússola capaz de nos orientar. A Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium indica-nos como na Igreja, no início, há a adoração, Deus e a centralidade da presença de Cristo. E a Igreja, Corpo de Cristo e povo peregrino no tempo, tem como tarefa fundamental glorificar Deus, como exprime a Constituição dogmática Lumen gentium. O terceiro documento que gostaria de citar é a Constituição sobre a

Revelação Divina Dei Verbum: a Palavra viva de Deus convoca a Igreja e vivifica-a ao longo de todo o seu caminho na história. E o modo como a Igreja leva ao mundo inteiro a luz que recebeu de Deus, para que seja glorificado, é o tema de base da Constituição pastoral Gaudium et spes.

O Concílio Vaticano II é para nós um forte apelo a redescobrir cada dia a beleza da nossa fé, a conhecê-la de modo profundo para uma relação mais intensa com o Senhor, a viver até ao fim a nossa vocação cristã.

A Virgem Maria, Mãe de Cristo e de toda a Igreja, nos ajude a realizar e a levar a cumprimento o que os Padres conciliares, animados pelo Espírito Santo, conservavam no coração: o desejo de que todos possam conhecer o Evangelho e encontrar-se com o Senhor Jesus como Caminho, Verdade e Vida. Obrigado!



terça-feira, 23 de outubro de 2012

A Honestidade das Pequenas Atitudes

A Honestidade das Pequenas Atitudes


Nosso dia a dia com freqüência nos surpreende com coisas inesperadas, que pensamos não mais existirem ou estarem fora de moda.

Vivi na manhã de hoje, um dessses momentos tão surpreendente quanto inesperado pela extrema singeleza de um do fato de profunda honestidade.

Pensando que o bem por natureza se difunde sempre que não é sufocado e pelo contrário é partilhado, sinto a necessidade de partilhar consigo a bela lição de vida desta manhã.

Logo cedo tive necessidade de tomar um taxi, por dificuldade de andar embora a corrida fosse curtai.

Ao fazer o pagamento, R$ 10,00, não encontrei o dinheiro que trazia no bolso. Na porta de casa a funcionária efetuou o pagamento. E o taxista partiu.

Uns minutos depois ele volta e entrega os R$ 10.00 que eu sem perceber tinha deixado cair no piso do taxi.

Não sei nada da vida desse taxista, nem sequer sei o seu nome. Mas seu gesto desta manhã o identifica como uma pessoa honesta, que para ser honesto não espera por atitudes espetaculares e heroicas, mostrando sua honestidade na entrega dos R$ 10,00 que não lhe pertenciam.

Em si, esse gesto insignificante pode passar despercebido, ou mesmo ser até redicularizado, como exagero de honestidade mas é uma Lição de Vida, pois que a honestidade deve existir em todo agir humano, a partir das pequenas atitudes do nosso dia a dia de cidadão comum.

Sinto-me feliz e agradeço ao Senhor por estar a honestidade ao alcance de todo ser humano e não ser exclusividade de quem tem o saber, poder e a riqueza.






  



quinta-feira, 20 de setembro de 2012



OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS: CONCLUSÃO


Encerro hoje esta longa catequese sobre os Mandamentos da Lei de Deus. Faço-o com as palavras do Papa Bento XVI no dia 19 de março de 2006, na homilia da Missa do Terceiro Domingo da Quaresma e logo em seguida, ao meio-dia, após a oração do “Anjo do Senhor” (o relevo em negrito é meu):

Na homilia da Missa: “Ouvimos juntos uma página do Livro do Êxodo, aquela na qual o autor sagrado relata a entrega a Israel do Decálogo da parte de Deus. Um detalhe impacta imediatamente: a enunciação dos mandamentos está introduzida por uma significativa referência à libertação do povo de Israel. Diz o texto: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou do país do Egito, da casa da escravidão” (Êxodo 20, 2).

O Decálogo, portanto, quer ser uma confirmação da liberdade conquistada. Com efeito, os mandamentos, se são vistos em profundidade, são o meio que o Senhor nos dá para defender a nossa liberdade tanto dos condicionamentos internos das paixões como dos abusos externos dos mal intencionados. Os “não” dos mandamentos são outros tantos “sim” ao crescimento de uma autêntica liberdade.

Há uma segunda dimensão no Decálogo que também convém sublinhar: mediante a Lei dada pela mão de Moisés, o Senhor revela que quer fechar com Israel um pacto de aliança. A lei, portanto, mais que uma imposição, é um dom; mais que mandar o que o homem deve fazer, ela quer manifestar a todos a eleição de Deus. Deus está da parte do povo eleito; libertou-o da escravidão e o rodeia com sua bondade misericordiosa. O Decálogo é testemunho de um amor de predileção.”

Após a oração do “Anjo do Senhor” o Papa disse: “O homem moderno não compreende os mandamentos; toma-os por proibições arbitrárias de Deus, por limites postos à sua liberdade. Mas os mandamentos de Deus são uma manifestação de seu amor e de sua solicitude paterna pelo homem. «Cuida de praticar do que te fará feliz” (Deuteronômio 6,3; 30,15s): este, e não outro, é o objetivo dos mandamentos.

Em algumas passagens perigosas do caminho que leva ao Monte Sinai, onde os dez mandamentos foram dados por Deus, para evitar que algum distraído ou inexperiente saia do caminho e se precipite ao vazio, colocaram-se sinais de perigo, alertas, ou se criaram barreiras. O objetivo dos mandamentos não é diferente disso. Nós mesmos vemos o que se passa na sociedade quando se pisoteiam sistematicamente certos mandamentos, como o de não matar ou não roubar...”

Pense nestas palavras do Papa e reavalie seu modo de ver os Mandamentos da Lei de Deus. E que seja de Jesus a última palavra: “Quem acolhe e observa os meus mandamentos, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (João 14,21). Não poderia haver recompensa maior para quem procura ser fiel à vontade de Deus.

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.




DÉCIMO MANDAMENTO: NÃO COBIÇAR AS COISAS ALHEIAS




Este mandamento é um complemento e, de certa forma, a repetição do nono, que manda não desejar a esposa (igualmente o esposo!) de outrem, aliás, coisa muito comum hoje: o famoso assédio sexual. Diz a Bíblia: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma do que lhe pertença” (Êxodo 20,17).

São Tiago diz que toda forma de cobiça nasce do coração. A cobiça dos bens alheios está na raiz do roubo, da rapina, da fraude, enfim, de tudo o que o sétimo mandamento condena. A “concupiscência dos olhos” (1 João 2,16) está na raiz da violência e da injustiça, condenadas pelo quinto mandamento. A cobiça é uma forma de idolatria, vê o bem desejado como uma espécie de deus; o mesmo se dá com a fornicação e a própria idolatria, proibidas pelos três primeiros mandamentos.

Em resumo, o décimo mandamento, junto com o nono, zela pela pureza integral do coração e resume todos os mandamentos da Lei. Por que? Porque só um coração puro e reto ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Por isso, o décimo mandamento proíbe uma série de atitudes negativas. Nossos apetites em si são indiferentes. Quando, porém, passam da medida, nos levam a cobiçar o que não nos pertence ou a ter desejos imoderados. Por isso, o décimo mandamento proíbe particularmente:

A avidez, que consiste no desejo exagerado de apropriar-se dos bens terrenos.

A cupidez ou cobiça, que consiste numa paixão desmedida pela posse de riquezas e de poder, e que leva as pessoas a nunca se saciarem de coisas: “Quem ama o dinheiro, dele não se fartará” (Eclesiastes 5,9). E São Paulo acrescenta: “Na verdade, a raíz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1 Timóteo 6,10). Esta é a grande tentação daqueles que, contanto que tenham elevados lucros, até anseiam por situações de miséria e sofrimento a fim de poder explorá-las.

A inveja, que consiste na tristeza que se sente diante do bem dos outros e do forte desejo que se tem de apropriar-se dele. Quando se deseja um mal grave, é pecado grave. Lembremos aqui a história de Davi, que se deixou levar pela inveja e se apropriou da mulher de Urias, e como Deus o castigou: veja o episódio em 2 Samuel 11-12. Foi a inveja que levou o diabo a tentar nossos primeiros pais, como também foi por inveja que Caim matou Abel... Santo Agostinho diz que a inveja é “o pecado diabólico por excelência”. E São Gregório Magno afirma que “da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do próximo e o desprazer causado por sua prosperidade”. A inveja é um dos sete vícios capitais.

Como reação às nossas más inclinações, devemos alimentar bons desejos em nosso coração. Diz São Paulo: “Como homem interior, ponho toda a minha satisfação na Lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me aprisiona na lei do pecado, que está nos meus membros” (Romanos 7,22-23). Esta é a situação de todos nós, este é o conflito que todos nós devemos enfrentar.

Como? São Paulo pergunta e ele mesmo responde: “Quem me libertará deste corpo de morte? Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 7,24-25). E Jesus, com sua morte, pregou na cruz todo pecado, convidando-nos a fazer o mesmo, como diz ainda São Paulo: “Os que pertencem a Jesus Cristo crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos” (Gálatas 5,24).

Além de Cristo morrer na cruz para nos livrar do pecado, o próprio São Paulo acrescenta ao texto apenas citado: “Se vivemos pelo Espírito, procedamos também de acordo com o Espírito” (Gálatas 5,25). Portanto, o Espírito Santo é nosso grande defensor contra o mal e aquele que alimenta em nós os desejos do bem.

Como dar lugar no coração aos desejos do bem? Esvaziando o próprio coração. Jesus proclamou: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5,3). Disse também: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,33). A pobreza segundo Evangelho é condição indispensável para ter o coração livre e possuir o Reino. Só um coração livre das coisas terrenas pode ser guiado pelo Espírito Santo.

O uso dos bens terrenos é lícito e necessário, mas é preciso cuidar para que ele não sufoque o coração por desejos desmedidos. É bom lembrar que cada Bem-aventurança, na redação de São Lucas, vem acompanhada por uma correspondente maldição: “Ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! Ai de vós que agora estais fartos, porque passareis fome!” (Lucas 6,24-25). Por isso, é fundamental o abandono nas mãos da Providência do Pai: leia o belo texto de Mateus 6,25-34.

O único que pode saciar o coração humano é Deus. No início de seu famoso livros “Confissões”, Santo Agostinho diz de forma muito apropriada e bela: “O nosso coração, Senhor, foi feito para ti e ele está inquieto enquanto não repousar em ti”. Só Deus pode saciar a sede de nosso coração de possuir o mais possível, isto é, a felicidade perfeita. Na Bíblia, ver é possuir. Assim, o maior desejo que podemos alimentar em nosso coração é o de ver a Deus.

Por isso, terminemos com esta belíssima passagem de Santo Agostinho: “Aí (no céu) haverá a verdadeira glória; ninguém será louvado então por engano ou bajulação; as verdadeiras honras não serão recusadas àqueles que as merecem, nem concedidas aos indignos; aliás, nenhum indigno terá tal pretensão, pois só quem é digno será admitido. Aí reinará a verdadeira paz, onde ninguém será sujeito à oposição nem de si mesmo nem dos outros. Da virtude, o próprio Deus será a recompensa, Ele que deu a virtude e se prometeu a si mesmo como a recompensa (para ela) melhor e maior que possa existir: "Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo" (Levítico 26,12). É também o sentido das palavras do Apóstolo: "Para que Deus seja tudo em todos" (1 Coríntios 15,12). Ele mesmo será o fim de nossos desejos, aquele que contemplaremos sem fim, amaremos sem sociedade, louvaremos sem cansaço. E esse dom, essa afeição, essa ocupação serão certamente como a vida eterna, comuns a todos”.

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.




NONO MANDAMENTO: NÃO DESEJAR A MULHER DO PRÓXIMO


Na verdade, a formulação atual deste mandamento pode parecer restrita ao homem com relação à mulher alheia. Mas não é assim: o que ele de fato quer inculcar é que nosso amor a Deus e ao próximo nos deve levar a evitar toda forma de a concupiscência carnal.

Em outras palavras, ele se refere a toda forma de maus pensamentos e desejos carnais. Sabemos como somos fracos no campo da carne e como nossa mente e nosso coração são vítimas fáceis de imaginações não condizentes com a pureza do amor. Entendemos melhor, então, o nono mandamento ao lembrarmos as palavras de Jesus já citadas anteriormente: “Todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério contra ela em seu coração” (Mateus 5,28).

Ouçamos São João: “Tudo o que há no mundo – a concupiscência humana, a cobiça dos olhos e a ostentação da riqueza – não vem do Pai, mas do mundo” (1 João 2,16). Estas palavras foram sempre sintetizadas em três formas de cobiça – é isto o que significa a palavra concupiscência –, isto é, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Elas resumem tudo o que o ser humano pode desejar de forma desregrada.

Eis a palavra de Jesus: "É do coração que saem as más intenções: homicídios, adultérios, imoralidade sexual, roubos, falsos testemunhos e calúnias" (Mateus 15,19). E São Tiago explica: “Cada qual é tentado por sua própria concupiscência, que o arrasta e seduz. Em seguida, a concupiscência concebe o pecado e o dá à luz” (Tiago 1,14-15). Realmente, nossos atos brotam de nossa mente e de nosso coração.

Para purificar o coração a vigilância e a luta devem ser constantes. Desde que o pecado deixou em nós sua marca, isto é, a inclinação para o mal, é preciso estar sempre atentos e servir-nos de todos os meios para não permitir que surjam em nós maus desejos. Aqui tem grande importância a virtude da temperança, moderadora de todos os nossos comportamentos. Jesus proclamou: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5,8). Ser puro de coração significa procurar pertencer totalmente a Deus em pensamentos, palavras e obras. O coração, na Bíblia, é considerado o centro da pessoa: ter um coração puro é ser uma pessoa pura. É a pureza de coração que, como diz a sexta bem-aventurança, permite ver a Deus: ou seja, ver a Deus em tudo e ver tudo conforme Deus vê, portanto, sem maldade nenhuma.

O coração vai se purificando na medida em que lutarmos contra pensamentos e desejos desordenados no campo da castidade. Isso é feito:

· pela virtude e pelo dom da castidade, que nos permite amar com um coração reto e indiviso;

· pela pureza de intenção, pois na vida é preciso agir sempre tendo em vista o fim verdadeiro do homem, ou seja, fazer em tudo a vontade de Deus e opor-se a tudo o que o pode ofender;

· pela pureza do olhar, exterior e interior; pela disciplina dos sentimentos e da imaginação; pela recusa de toda complacência nos pensamentos impuros que tendem a desviar-nos do caminho dos mandamentos divinos;

· pela oração, dado que sem ela é impossível aderir á vontade de Deus e obter forças para cumprir os mandamentos;

· pelo pudor, que defende a intimidade, a privacidade das pessoas, não expõe o que deve ficar resguardado, torna a pessoa delicada e respeitosa com o próprio corpo e com o corpo dos outros. O pudor envolve sobretudo os olhares, a língua, os gestos, o modo de se comportar, de se apresentar... Sem o pudor, é impossível viver a castidade;

· pela purificação do clima social, pois os meios de comunicação social têm grande responsabilidade nesse campo; estão errados quando, por suas apresentações, incentivam o erotismo, espetáculos ofensivos à moral sexual, enfim, por tudo o que é falta de respeito e de modéstia;

· pelo combate à permissividade dos costumes, que freqüentemente se baseia na falsa noção de liberdade de pensar que se pode fazer de tudo, sem limite para nada; de fato, recorre-se imediatamente ao grito “censura!” quando se observa que certas coisas não podem ser veiculadas impunemente para a virtude. Precisamos deixar-nos guiar pela lei moral, e os responsáveis pela educação têm obrigação grave de educar a juventude nesse campo.

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.


O OITAVO MANDAMENTO E O RESPEITO PELA VERDADE


A verdade deve ser sempre respeitada. Isto, porém, não significa que ela deva ser dita a qualquer pessoa. Há critérios para isso. O direito à comunicação ou informação da verdade não é sem condições. O critério máximo é o Evangelho, em particular o amor fraterno. O bem dos outros, sua privacidade, o bem comum, o dever de evitar escândalo, muitas vezes nos obrigam a calar. Por isso, é preciso avaliar cada vez se convém ou não revelar a verdade a quem quer sabê-la; e ninguém é obrigado a revelá-la a quem não tem o direito de exigi-la.

Há casos especiais que exigem sempre rigor, especialmente dois:

- O sigilo do sacramento da Reconciliação: do qual o Código de Direito Canônico, cânone 983,1 diz: “O sigilo sacramental é inviolável; por isso, não é lícito ao confessor revelar o penitente, com palavras, ou de qualquer outro modo, por nenhuma causa”.

- Os segredos profissionais também entram na linha do sigilo absoluto, a não ser que ele prejudique gravemente a quem o confia, a quem o recebe ou a terceiros. De modo geral, exigem-se reservas quanto à privacidade das pessoas, mais ainda quando ocupam cargos de responsabilidade e a violação do sigilo pode comprometer outros.

Em particular, os meios de comunicação social têm obrigações com a verdade. Quem não conhece a importância dos meios de comunicação social? Entretanto, eles deveriam estar unicamente a serviço da verdade e do bem comum. Todos sabemos o quanto são manipulados e quanta influência eles têm sobre a mente e o coração humanos, particularmente dos jovens.
Tanto os formadores de opinião pública, quanto os detentores dos meios de comunicação social e os usuários dos mesmos, devem formar a própria consciência e servir-se de tais meios em função da verdade, da justiça, da caridade e do bem comum. O que vemos, infelizmente, não é bem isso; pelo contrário... É preciso, porém, lutar para que esse grande dom de Deus, sempre mais sofisticado e rápido, sirva para o bem de todos e para a glória de Deus.

No contexto do oitavo mandamento devemos também levar em conta a beleza e a arte: também elas têm compromissos com a verdade. A verdade é bela em si mesma. Além de se expressar pela palavra, ela pode também expressar-se por meio da arte. A arte evoca o que a verdade contém de indizível, as profundezas do coração humano, as elevações da alma, o mistério de Deus. De fato, antes de se revelar ao homem em palavras de verdade, Deus se revela pela linguagem da beleza das criaturas, “pois foi o Princípio e o Autor da beleza quem as criou... De fato, partindo da grandeza e beleza das criaturas, pode-se chegar a ver, por analogia, o Criador” (Sabedoria 13,3.5).
Em particular, observe-se: “A arte sacra é verdadeira e bela quando corresponde, por sua forma, à sua vocação própria: evocar e glorificar, na fé e na adoração, o Mistério transcendente de Deus, beleza excelsa invisível de verdade e amor, revelada em Cristo, "resplendor de sua glória, expressão de seu Ser" (Hebreus 1,3), em quem "habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Colossenses 2,9), beleza espiritual refletida na Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, nos anjos e santos. A arte sacra verdadeira leva o homem à adoração, à oração e ao amor de Deus Criador e Salvador, Santo e Santificador” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2502).

Para concluir, note-se que, enquanto a natureza (mineral, vegetal, animar) é sempre verdadeira porque coerente consigo mesma, só o ser humano falsifica a verdade. É lamentável: a criatura humana, feita à imagem e semelhança de Deus, Verdade Suprema, é capaz de falsificá-la, em prejuízo próprio, dos outros e de toda a criação. De mentirinha em mentirinha, sou eu que, aos poucos, vou falsificando todo o meu ser, vou me tornando mentiroso. Na realidade das horas que passam, o oitavo está entre os mandamentos mais violados. Sejamos verdadeiros para nos tornarmos sempre mais semelhantes a Deus.

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.




OITAVO MANDAMENTO: NÃO LEVANTAR FALSO TESTEMUNHO


O sentido do oitavo mandamento é este: Deus é a verdade, ele só pode querer a verdade. Nós que somos suas criaturas, seus filhos e filhas, seríamos infiéis a ele e o ofenderíamos se faltássemos com a verdade. Faltar à verdade por palavras ou atitudes significa rejeitar a retidão moral, a honestidade do ser humano, mais ainda do cristão. Amar a Deus sobre todas as coisas significa também amar mais a verdade do que nossos interesses que poderíamos defender com a mentira.

O Antigo Testamento está repleto de afirmações a respeito da verdade de Deus. Podemos resumi-las todas na palavra de São Paulo: “Seja Deus reconhecido veraz” (Romanos 3,4). O mesmo acontece no Novo Testamento a respeito de Jesus. Ele veio entre nós “em plenitude de graça e de verdade... A lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (João 1,14.17).

Jesus prometeu a seus ouvintes: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres” (João 31-32). E acrescentou: “Quando ele vier, o Espírito da verdade, vos conduzirá na verdade plena” (João 16,13). Finalmente pediu que os discípulos sejam verazes: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mateus 5,37).

O Concílio Vaticano II, na Declaração sobre a Dignidade Humana (n. 2), diz: “É postulado da própria dignidade que os homens todos, por serem pessoas... se sintam por natureza impelidos e moralmente obrigados a procurar a verdade, sobretudo a que concerne à religião. São obrigados também a aderir à verdade conhecida e a ordenar toda a vida segundo as exigências da verdade". Santo Tomás de Aquino acrescenta: “Os homens não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, quer dizer, se não manifestassem a verdade uns aos outros” (Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2469).

Em qualquer situação da vida, nós sempre devemos dar testemunho da verdade. Devemos procurar ser como Jesus, que disse: “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade” (João 18,37). É exatamente este o conteúdo do oitavo mandamento: “Não darás falso testemunho contra teu próximo” (Êxodo 20,16). E Jesus insiste: “Ouvistes também que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’” (Mateus 5,33). Daí que nós devemos ser, em toda parte e lugar, testemunhas do Evangelho e de tudo quanto ele ensina.

O martírio é o máximo testemunho da verdade que se pode dar, pois ele envolve a morte da pessoa, a supressão da vida por amor à fé, por amor a Cristo. Santo Inácio de Antioquia, fervoroso mártir do século II, sendo conduzido a Roma para ser sacrificado, escreveu aos romanos prevenindo-os para que nada fizessem a fim de livrá-lo de morrer por Cristo: "Deixai-me ser comida das feras. É por elas que me será concedido chegar até Deus." O martírio pode ter motivações diversas, contanto que seja sempre por amor a Deus, a alguma virtude, como a fé, a justiça, a pureza, o amor ao próximo.

Dito isso, temos que estar atentos porque há muitas formas de faltar à verdade, principalmente por meio da mentira, indigna de quem é discípulo de Cristo. Quem foi batizado, como ensina São Paulo, deve revestir-se “do homem novo, criado à imagem de Deus, na verdadeira justiça e santidade. Portanto, tendo vós rompido com a mentira, que cada um diga a verdade a seu próximo” (Efésios 4,24-25). E São Pedro acrescenta: “Despojai-vos de toda maldade, de toda mentira, hipocrisia e inveja, e de toda calúnia” (1Pedro 2,1).

O cristão, portanto, deve ser verdadeiro em tudo o que faz e diz, do contrário não será discípulo daquele que declarou: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14,6). Jesus foi severo com os mentirosos: “O vosso pai é o diabo, e quereis cumprir o desejo do vosso pai. Ele era assassino desde o começo e não se manteve na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele fala mentira, fala o que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira” (João 8,44).

Uma pergunta: será grave mentir? A gravidade da mentira depende do tipo de verdade que ela deforma, das circunstâncias em que é pronunciada, das intenções de quem a profere, dos prejuízos que ela acarreta. É pecado mortal quando fere gravemente as virtudes da justiça e da caridade. Mentir está errado por natureza. Quem mente profana a palavra, dom de Deus, concedido a nós para falar a verdade, não para enganar o próximo. A mentira causa grandes prejuízos na sociedade, destrói a confiança entre as pessoas e afeta o relacionamento.

Diante do mal provocado pela mentira, a justiça manda que ela seja reparada. “Toda falta cometida contra a justiça e a verdade impõe o dever de reparação, mesmo que seu autor tenha sido perdoado [no sacramento da Penitência]. Quando se torna impossível reparar um erro publicamente, deve-se fazê-lo em segredo; se aquele que sofreu o prejuízo não pode ser diretamente indenizado, deve-se dar-lhe satisfação moralmente, em nome da caridade. Esse dever de reparação se refere também às faltas cometidas contra a reputação de outrem. Essa reparação, moral e às vezes material, será avaliada na proporção do dano causado e obriga em consciência” (Catecismo da Igreja Católica n. 2487).

Além da mentira, há outras formas de faltar à verdade, principalmente estas:

- Dar falso testemunho; pior ainda jurar que é verdade quando na realidade é mentira, coisa que se classifica de perjúrio; trata-se de faltas que prejudicam gravemente o próximo, às vezes com consequências terríveis, como condenar um inocente á prisão perpétua ou até à morte, como tem acontecido.

- Prejudicar a boa fama das pessoas, o que pode acontecer de diversas formas: por juízo temerário, isto é, pensar mal de alguém ou falar sem ter fundamento real para isso; por maledicência, que consiste em revelar a outros defeitos de terceiros sem haver motivos muito sérios para isso; por calúnia, ao inventar coisas a respeito de alguém, sabendo que é mentira. Tudo isto acaba destruindo a reputação e a honra do próximo.

- A bajulação, adulação ou complacência; essas atitudes ou confirmam os outros em seus vícios ou buscam vantagens indevidamente;

- A jactância ou fanfarronice, bem como a ironia são contra a verdade: todas elas acabam falsificando a realidade da pessoa que as pratica ou falsificando a realidade dos outros. – (Continua na próxima postagem).

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.




O SÉTIMO MANDAMENTO MANDA SER SOLIDÁRIOS



Faz parte do sétimo mandamento no setor da justiça social também a solidariedade. De fato, o Catecismo da Igreja Católica n. 2437-2438 observa: “No plano internacional, a desigualdade dos recursos e dos meios econômicos é tão grande que provoca entre as nações um verdadeiro fosso. De um lado, estão os que detêm e desenvolvem os meios de crescimento e, de outro, os que acumulam as dívidas. Diversas causas, de natureza religiosa, política, econômica e financeira, conferem hoje à questão social uma dimensão mundial”.

O Catecismo continua: “A solidariedade é necessária entre as nações cujas políticas já são interdependentes. É ainda mais indispensável quando se torna preciso deter ‘os mecanismos perversos’ que impedem o desenvolvimento dos países menos avançados. Urge substituir os sistemas financeiros abusivos e mesmo usurários, as relações comerciais iníquas entre as nações e a corrida armamentista por um esforço comum no sentido de mobilizar os recursos e objetivos de desenvolvimento moral, cultural e econômico, redefinindo as prioridades e as escalas de valores".

É possível definir algumas responsabilidades maiores. Aqui estão algumas:

• as nações ricas têm responsabilidades especiais graves para com as que não têm condições de se desenvolverem: é um dever de solidariedade e caridade;

• a ajuda direta é uma forma de atender às necessidades imediatas das nações que, por um motivo ou por outro, estão submersas em dificuldades especiais ou na miséria permanente;

• há também a necessidade de reformar as instituições econômicas e financeiras internacionais para que ajudem de forma mais equitativa os países menos desenvolvidos;

• na base de qualquer crescimento do desenvolvimento completo da sociedade humana está o senso de Deus e o reconhecimento do nosso lugar como criaturas; se não houver cuidado em cultivar esses valores, o egoísmo prevalecerá;

• a tarefa de intervir diretamente na construção política e na organização da vida social não cabe aos pastores, mas é vocação própria dos fiéis leigos, o que pode ser feito de diversas maneiras.

Quanto aos pobres, a Igreja ensina: “Deus abençoa aqueles que ajudam os pobres e reprova aqueles que se afastam deles: ‘Dá ao que te pede e não voltes as costas ao que te pede emprestado’(Mateus 5,42). ‘De graça recebestes, de graça dai’ (Mateus 10,8). Jesus Cristo reconhecerá seus eleitos pelo que tiverem feito pelos pobres. Temos o sinal da presença de Cristo quando ‘os pobres são evangelizados’ (Mateus 11,53)”.

“O amor da Igreja pelos pobres... faz parte de sua tradição constante. Inspira-se no Evangelho das bem-aventuranças, na pobreza de Jesus e em sua atenção aos pobres. O amor aos pobres é também um dos motivos do dever de trabalhar, para se ter o que partilhar com quem tiver necessidade. Não se estende apenas à pobreza material, mas também às numerosas formas de pobreza cultural e religiosa. O amor aos pobres é incompatível com o amor imoderado das riquezas ou o uso egoísta delas” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2443-2445).

Em relação aos pobres há dois grandes meios a se levar em consideração:

• as obras de misericórdia: veja-as em Mateus 25,31-46; elas serão critério fundamental para nosso julgamento.

• o amor preferencial pelos pobres: o Antigo Testamento já o recomendava o amor pelos mais fracos: “Uma vez que nunca deixará de haver pobres na terra, eu te dou este mandamento. Abre tua mão para teu irmão, teu necessitado, teu pobre em tua terra” (Deuteronômio 15,11); palavras que Jesus fez suas: “Os pobres, sempre os tendes convosco. A mim, no entanto, nem sempre tereis” (João 12,8).

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.


O SÉTIMO MANDAMENTO E O TRABALHO



A justiça social ilumina com particular intensidade o trabalho: dele deriva a grandeza para o ser humano, tornado parceiro de Deus na obra da criação. Posto no mundo para trabalhar, São Paulo diz que “quem não quer trabalhar também não coma” (2 Tessalonicenses 3,10).


O trabalho honra o ser humano e honra também o Criador. Ele pode ser redentor, quando suportado com paciência e unido a Jesus Redentor que trabalhou com suas mãos. Tenha-se sempre presente que o trabalho é para o homem, não o homem para o trabalho. O trabalho deve ser fonte de dignidade, não de humilhação e escravidão.


O trabalho tem ainda outras exigências. Acenaremos aqui a algumas, sem poder deter-nos em explicitá-las cabalmente:

• Cada um tem o direito de iniciativa econômica para o próprio bem e para o bem comum; naturalmente deverá adaptar-se às normas que existem para regular o bem comum.

• A vida econômica fatalmente acaba criando conflitos: é preciso bom senso e esforço para minimizá-los e solucioná-los conforme a justiça social.

• O Estado tem responsabilidades especiais nesse setor: ele deve criar todas as condições favoráveis ao desenvolvimento das atividades econômicas e garantir aos que trabalham condições adequadas para cumprirem sua missão; em particular, é preciso que se respeitem os direitos humanos no setor econômico;

• Especiais responsabilidades têm os donos de empresas: eles devem pensar antes no bem das pessoas mais do que nos lucros; naturalmente, também estes são necessários.



O trabalho tem ainda algumas outras exigências. Assinalamos as seguintes:

• O acesso ao trabalho é preciso que esteja aberto a todos, sem discriminação.

• Quem trabalha merece seu salário justo: recusá-lo ou retê-lo pode ser grave injustiça. “Olhai: o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que vós deixastes de pagar, está gritando; o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso” (Tiago 5,4). Um salário justo exige que com ele se possam atender às necessidades da pessoa, dependendo também de suas contribuições; o acordo entre partes não basta para justificar moralmente o montante de um salário.

• O protesto da greve pode ser legítimo e até necessário, mas é moralmente inaceitável quando acompanhado de violência ou quando esconde objetivos que não se referem diretamente às condições do trabalho em questão.

• É falta de justiça sonegar o pagamento das cotas estipuladas pelas autoridades legítimas em função da seguridade social.

• Grande atentado à dignidade humana é a privação do trabalho (desemprego), pois coloca em situação difícil a pessoa desempregada, sua família e o equilíbrio da vida social.


Para encerrar, muito belas as palavras do Papa Leão XIII sobre Jesus que aprendeu a trabalhar na casa de José e Maria: “Antes que Ele tivesse as mãos banhadas de sangue pelos tormentos da crucificação, teve-as banhadas de suor pela sua dedicação ao trabalho”. O criador do mundo aprendeu de um ser humano – José – a usar as próprias mãos para aperfeiçoar a criação, tarefa confiada por Deus aos seres humanos. – (Continua na próxima postagem).

PS O texto acima tem como autor Dom Hilario Moser,sdb, Bispo Emérito de Tubarão, SC e é aqui transcrito com sua autorização.