quinta-feira, 22 de março de 2012
TERCEIRO MANDAMENTO: GUARDAR OS DOMINGOS E FESTAS DE GUARDA
Faz parte da virtude da religião respeitar o Dia do Senhor, pois também o tempo pertence a Deus. No Antigo Testamento o dia dedicado a Deus era o sábado. “Lembra-te de santificar o dia do sábado. Trabalharás durante seis dias e farás todos os trabalhos, mas o sétimo dia é sábado, descanso dedicado ao Senhor teu Deus. Não farás trabalho algum” (Êxodo 20,8-10). Portanto, o terceiro mandamento nos pede para dedicar o dia santo ao Senhor e descansar dos trabalhos: o dia santo é para a Deus, o descanso é para o ser humano.
O sábado lembrava ao povo de Israel particularmente três acontecimentos fundamentais:
• a criação do mundo: “O Senhor fez em seis dias o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; mas no sétimo dia descansou. Por isso o Senhor abençoou o dia do sábado e o santificou” (Êxodo 20,11);
• a libertação da escravidão do Egito: “Lembra-te de que foste escravo no Egito, mas o Senhor teu Deus te tirou de lá com mão forte e braço estendido. É por isso que o Senhor teu Deus ordena que guardes o sábado” (Deuteronômio 5,15);
• a Aliança: “Os israelitas guardarão o sábado, observando-o por todas as gerações como aliança perpétua” (Êxodo 31,16).
Em relação ao trabalho, o sábado se destina também ao descanso. Essa pausa nos trabalhos “será um sinal perpétuo entre mim e os israelitas. Pois em seis dias o Senhor fez o céu e a terra, e no sétimo parou para respirar” (Êxodo 31,17). Assim, o agir de Deus é modelo do agir humano. “Também o homem deve ‘folgar’ e deixar que os outros, sobretudo os pobres, ‘retomem fôlego’ (cf. Êxodo 23,12). O sábado faz cessar os trabalhos cotidianos e concede uma pausa. É um dia de protesto contra as escravidões do
trabalho e o culto do dinheiro” (Catecismo da Igreja Católica n. 2172).
É interessante e instrutivo observar o comportamento de Jesus quanto ao sábado. Diversas vezes Ele foi acusado de violar a lei do sábado, mas ele, na verdade, nunca o profanou. Com pena dos sofredores, curou doentes, isso sim, ou atendeu a necessidades urgentes das pessoas. “Num dia de sábado, Jesus passou pelas plantações de trigo. Seus discípulos estavam com fome e começaram a arrancar espigas para comer.
Vendo isso, os fariseus disseram-lhe: ‘Olha, os teus discípulos fazem o que não é permitido fazer em dia de sábado!’ Jesus respondeu:... Se tivésseis chegado a compreender o que significa, ‘Eu quero a misericórdia e não sacrifícios’, não condenaríeis inocentes. De fato, o Filho do Homem é Senhor do sábado” (Mateus 12,1-3.7).
Com o Novo Testamento, nós, cristãos, passsamos a dedicar ao Senhor o dia de Domingo, palavra que significa precisamente “do Senhor”. O motivo está no fato de Jesus ter ressuscitado no dia seguinte ao sábado. Esse dia, enquanto primeiro dia da semana, recorda o início da criação do mundo. Mas o domingo pode ser considerado também como oitavo dia da semana e, nesse caso, nos lembra a nova criação inaugurada pela ressurreição de Jesus. Por causa disso, o dia seguinte ao sábado passou a ser, na praxe eclesial, o primeiro dia, o Dia do Senhor. A Igreja sempre entendeu que o domingo, dia em que Cristo ressuscitou, confere sentido pleno ao sábado judaico e anuncia o repouso eterno do homem em Deus.
Conhecemos o modo de celebrar o domingo nos inícios do cristianismo. É dos tempos apostólicos a praxe de os fiéis se reunirem para ouvir a Palavra de Deus e celebrar a Eucaristia. “Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão (este era o nome dado à Eucaristia) e nas orações [...] Perseverantes e bem unidos, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão (Eucaristia) pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo” (Atos dos Apóstolos 2,43.46-47). São famosos também os testemunhos que datam do primeiro século sobre a celebração do Dia do Senhor. À imitação da comunidade de Jerusalém, da qual falam os Atos dos Apóstolos, os cristãos se reuniam nesse dia para ouvir a Palavra de Deus, celebrar a Eucaristia, fomentar a comunhão fraterna e cuidar dos pobres.
Foi assim que, aos poucos, criou-se na Igreja a praxe de celebrar o domingo. Respeitar o domingo como Dia do Senhor e reservá-lo para prestar culto a Deus, este é o grande ato de amor a Deus pedido pelo terceiro mandamento. Por isso, a Igreja determina: “O domingo, dia em que por tradição apostólica se celebra o Mistério Pascal, deve ser guardado em toda a Igreja como dia de festa de preceito por excelência” (Código de Direito Canônico c. 1246,1). É este um dos Mandamentos da Igreja; com essa norma, ela entende ligar gravemente a consciência dos fiéis.
Infelizmente, nos tempos atuais, muitos católicos ignoram, na teoria e na prática, essa norma; violam o domingo sem se sentirem culpados por causa disso. A norma da Igreja existe para estimular a fraqueza humana a consagrar ao Criador um dia por semana e também para compreender que o trabalho (e o dinheiro...) não é tudo na vida.
Ao longo dos séculos, a Igreja estabeleceu também outros dias especiais de culto ao Senhor, os chamados “dias santos de guarda”. Todos eles celebram mistérios da vida de Cristo ou de Nossa Senhora ou mesmo a festa de algum santo. Todavia, conforme a diversidade das situações do mundo, o episcopado local, com o consentimento da Sé Apostólica, pode fundir algumas dessas celebrações com um domingo próximo, ou mesmo não celebrar algum santo. No Brasil, por exemplo, os dias santos ao longo da semana são somente quatro: Natal, Corpus Christi, Santa Mãe de Deus (1º de janeiro) e Imaculada Conceição (8 de dezembro); os demais dias santos que havia até anos atrás passaram a ser celebrados no domingo seguinte à data que lhes era própria. Aqui cabe um pequeno esclarecimento: ao contrário do que muita gente pensa, não são dias santos de guarda a Sexta-Feira Santa, a festa de Nossa Senhora Aparecida (12 de outubro) e o Dia de Finados (2 de novembro); por outro lado, são dias em que todo o católico até sente a necessidade de participar das celebrações litúrgicas e de outros atos de devoção: isso é muito louvável e até recomendável. - (Continua na próxima postagem).
NB - Este texto foi aqui reproduzido com a devida autorização de seu Autor:
Dom Hilário Moser, SDB
Bispo Emérito de Tubarão, SC
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